Em 17 de fevereiro de 2011 as ruas de Bengasi e Trípoli ecoaram um único grito: “Líbia livre”. Quinze anos depois, aquele brado transformou-se num suspiro cansado. A comemoração do aniversário chega em clima paradoxal: drones iluminam a Praça dos Mártires em Trípoli enquanto a arquitetura institucional ruiu em fissuras que ainda não foram consolidadas.
A Líbia de 2026 permanece dividida: a oeste, o Governo de Unidade Nacional (GUN) de Abdulhamid Dbeibah, reconhecido internacionalmente; a leste, um poder paralelo apoiado pelo general Khalifa Haftar. Esse desenho bipartido revela a tectônica de poder que modelou um país sem um alicerce centralizado.
O desenvolvimento mais inquietante é a chamada “guerra civil judiciária”. Na véspera do aniversário, uma sentença da Corte Constitucional de Bengasi declarou ilegítimos os órgãos superiores da magistratura em Trípoli, esvaziando de autoridade a última instituição que ainda oferecia um traço de unidade nacional. Sem uma magistratura partilhada, validar eleições futuras converte-se num desafio jurídico quase insuperável — um xeque que mina as pretensões de normalização.
O ambiente político está paralisado e o caso Al‑Masri acentuou essa crise. A prisão do líder acusado de torturas e homicídios, seguida por sua libertação em circunstâncias controversas na Itália, desencadeou um terremoto diplomático entre Roma e Trípoli. A recusa do governo do leste em reconhecer interlocutores italianos — evidenciada na rejeição ao ministro Piantedosi em Bengasi — expõe a fragilidade das relações e o reposicionamento dos eixos de influência no Mediterrâneo.
Outra peça que sacudiu o tabuleiro foi a morte de Saif al‑Islam Gheddafi, em 3 de fevereiro. Durante anos visto por parte da população como um possível ponto de convergência para uma estabilidade nostálgica, sua eliminação elimina uma das poucas figuras capazes de catalisar um retorno político organizado da antiga ordem. O desaparecimento de Saif altera os cálculos dos atores locais e regionais, redesenhando fronteiras invisíveis de apoio e oposição.
Do lado europeu, a ilusão de influência efetiva — nas palavras de Mario Draghi, evaporada — tornou-se evidente. A renovação automática do Memorando Itália‑Líbia (fevereiro de 2026) mantém fluxos de financiamento a uma Guarda Costeira frequentemente acusada de conluio com traficantes e de violações em centros de detenção. Paralelamente, a ausência de uma missão internacional de busca e salvamento reforça a letalidade da rota do Mediterrâneo central.
O país continua a bombear petróleo, mas a riqueza não se traduz em estabilidade. Milícias disputam territórios, rotas e receitas, enquanto instituições estatais permanecem frágeis. Na ausência de uma reforma constitucional e judicial que seja aceita por todo o país, qualquer calendário eleitoral arrisca converter-se em mais um movimento de peça isolado, condenado a cair diante do xeque mate das rivalidades internas.
Como analista que observa o jogo geopolitico com a calma de um jogador experiente, vejo a Líbia num momento de transição perigosa: não se trata apenas de reconstruir infraestruturas, mas de reerguer alicerces institucionais que sustentem confiança mútua. Sem isso, o país continuará sendo um espaço contestado, onde o petróleo flui e a estabilidade permanece um miragem. O desafio, agora, é transformar ruínas e esperanças dispersas em um novo modelo de governança que aceite concessões — um movimento de estratégia profundamente europeu e regional, se a comunidade internacional quiser agir com realismo e consistência.






















