Por Marco Severini — A tectônica de poder na região revela movimentos díspares, mas conectados por um mesmo eixo de influência. Nos últimos dias, três eventos distintos acenderam alertas diplomáticos e estratégicos: um incêndio em uma estalagem de ovelhas na Cisjordânia, a eliminação de um atacante na Faixa de Gaza e novos episódios de violência interna em Bnei Brak, Israel — todos interpretados no tabuleiro geopolítico como sinais de fragilidade nos alicerces locais.
Autoridades policiais de Israel informaram que o incêndio que devastou um estábulo no vilarejo de Samu, próximo a Hebron, não foi resultado de um ataque por colonos, mas sim de um curto-circuito. Segundo a investigação preliminar citada pela imprensa regional, o fogo teria começado em uma falha elétrica que incendiou as lonas que cobriam o recinto das ovelhas, levando à morte de dezenas de animais. A conclusão oficial exclui, por ora, motivação criminosa ou nacionalista.
Enquanto isso, na borda norte da Faixa de Gaza, o porta-voz das Forças de Defesa de Israel (IDF) relatou que tropas neutralizaram um miliciano que havia atravessado a chamada linha amarela e se aproximado de soldados israelenses. O episódio é interpretado, no jargão militar e diplomático, como um movimento táctico que poderia ter escalado para um confronto mais amplo se não fosse contido com rapidez. No jogo estratégico da região, tais incursões são peças que testam reações e recalibram prontidões.
Em Jerusalém, o presidente Isaac Herzog condenou com veemência os episódios de agressão ocorridos em Bnei Brak, onde um grupo de ultraortodoxos atacou duas militares do IDF, perseguindo-as até que a polícia interveio. Herzog definiu o ato como uma linha vermelha a não ser ultrapassada: “Levantar a mão contra membros das forças de segurança é inaceitável”, afirmou, lembrando que os manifestantes representam uma franja e não a totalidade da comunidade haredi.
O presidente acrescentou que é imperativo proteger o delicado processo de integração que busca conciliar o serviço militar obrigatório com as especificidades do estilo de vida ultraortodoxo. Esta é, nas palavras de um estrategista, uma jogada de diplomacia interna: manter a estabilidade social sem sacrificar a coesão nacional, um equilíbrio difícil em tempos de polarização.
No plano internacional, uma declaração conjunta de chancelerias lideradas pela Arábia Saudita condenou com firmeza a decisão de Israel de designar extensas parcelas da Cisjordânia como “terras estatais” e de aprovar procedimentos de registro fundiário nessas áreas — uma medida sem precedentes desde 1967. O comunicado qualificou a decisão como uma escalada que favorece a expansão de assentamentos, a apropriação de terras e o fortalecimento de um controle cujo caráter de soberania é considerado ilegítimo sobre o Território Palestino Ocupado. Em termos práticos e simbólicos, trata-se de um redesenho de fronteiras invisíveis que mina os alicerces de qualquer solução negociada.
Do ponto de vista estratégico, cada um desses episódios — o incêndio atribuído a um acidente, a eliminação de um atacante na fronteira e a violência interna contra soldados — é uma peça que influencia a estabilidade regional. A diplomacia deve, agora, exercitar sua arquitetura clássica: conter as fraturas sociais internas, evitar ações unilaterais que alterem fatos no terreno e promover canais que previnam que pequenos incidentes se convertam em movimentos decisivos no tabuleiro de confrontos mais amplos.
Em suma, a soma destes eventos evidencia que a região permanece sensível a choques, onde decisões administrativas sobre terra, reações de segurança e desordens sociais interagem como vetores de risco. A responsabilidade dos atores regionais e internacionais é, portanto, reduzir a probabilidade de escalada e restaurar um ritmo diplomático que reafirme as regras do jogo, antes que o movimento de uma peça obrigue todo o tabuleiro a se reorganizar.






















