Por Marco Severini — Em um movimento que combina urgência social e estratégia estatal, o governo da Ucrânia passou a financiar programas de congelamento de esperma e de óvulos destinados a militares, numa resposta direta ao receio de uma catástrofe demográfica em decorrência do conflito. A informação, inicialmente reportada pela BBC, baseia-se no testemunho de um combatente identificado como Maxim, membro da Guardia Nacional, que descreve a sensação de que “o nosso patrimônio genético está em risco”.
Maxim afirmou que, ao voltar de licença, foi convencido por sua esposa a realizar a doação em uma clínica de Kiev. O exemplo pessoal ilustra a lógica por trás da medida: se o militar morrer, o material genético preservado permitiria à família tentar concretizar o projeto de ter filhos.
O ponto de partida dessa política remonta aos primeiros meses de 2022, quando clínicas privadas de fertilidade começaram a oferecer a chamada crioconservação gratuitamente a militares — tanto para sêmen quanto, no caso das mulheres, para óvulos. Em 2023, o Parlamento ucraniano regulamentou a prática e destinou recursos públicos para viabilizar a iniciativa. A deputada Oksana Dmitrieva, envolvida na redação da lei, justificou a medida como uma forma de proteger “o futuro nacional” dos que estão defendendo o país.
Do ponto de vista operativo, a medida está inserida em um cenário mais amplo: o avanço das hostilidades, a presença constante de drones russos sobre a linha de frente e o impacto psicológico e físico da guerra têm efeitos sobre a fertilidade. Como o próprio soldado comentou, o estresse crônico associado à exposição a risco — seja no chamado “ponto zero” ou a dezenas de quilômetros da frente — reduz a capacidade reprodutiva.
Enquanto os aspectos humanos desta política exigem julgamento ético e suporte psicológico, há também uma leitura estratégica. Em termos demográficos, o contínuo esvaziamento das faixas etárias reprodutivas constitui um problema estrutural para a viabilidade de longo prazo do Estado. A intervenção do governo com financiamento público para a crioconservação é, portanto, uma manobra para preservar capital humano e, metaforicamente, o «tabuleiro de xadrez» genético da nação.
As implicações são múltiplas: preservação de famílias, efeitos sobre a moral das tropas e sinal político interno e externo sobre a prioridade dada à continuidade do Estado. Ao mesmo tempo, levanta questões sobre infraestrutura, armazenamento seguro do material biológico em tempo de guerra e os direitos reprodutivos dos envolvidos. Trata-se de uma medida com alicerces frágeis e força prática — necessária, porém complexa — no contexto de uma tectônica de poder que redesenha não apenas fronteiras, mas também as linhas da reprodução social.
Num horizonte mais amplo, a iniciativa ucraniana sinaliza que guerras contemporâneas exigem respostas que combinam medicina reprodutiva, políticas públicas e diplomacia silenciosa. A medida não elimina o problema demográfico, mas representa um movimento decisivo no tabuleiro: preservar opções futuras quando as jogadas em curso ameaçam o próprio futuro da nação.






















