Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha linhas invisíveis no tabuleiro geopolítico, o Financial Times reporta que o Kremlin teria incumbido antigos recrutadores e propagandistas da Wagner de alistar cidadãos europeus «economicamente vulneráveis» para a prática de atos de violência em solo de países da Nato. Trata‑se de uma estratégia de baixo custo político e alto impacto simbólico, que busca explorar fragilidades sociais como pontos de pressão em tempo de tensão.
O estatuto do grupo Wagner permanece ambíguo desde a rebelião frustrada de junho de 2023 contra o alto comando militar russo, seguida pela repressão interna e pela morte do fundador Yevgeny Prigozhin. Segundo fontes de inteligência ocidentais citadas pelo jornal, Moscou parece ter redirecionado para a Europa os quadros da organização especializados em persuadir jovens das regiões interiores da Rússia a irem combater na Ucrânia. Agora, essas mesmas competências de recrutamento seriam instrumentalizadas para operações encobertas no coração do continente europeu.
A revelação chega na véspera do novo ciclo de conversações trilaterais, envolvendo Moscou, Kiev e os Estados Unidos, agendadas para Ginebra nos próximos dias. O Kremlin informou que a pauta — ampla, segundo o próprio porta‑voz — incluirá a questão dos territórios, tema em que o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky mantém postura inflexível. Zelensky reitera que qualquer negociação territorial exige garantias de segurança robustas: «Putin não se detém com beijos e flores», disse, invocando exemplos como Geórgia e Chechênia para justificar cautela estratégica.
O clima diplomático já se mostra agravado pelo segundo aniversário da morte do opositor Alexei Navalny na prisão. Quinze países — Austrália, Canadá, República Tcheca, Dinamarca, Estônia, Finlândia, Alemanha, Letônia, Lituânia, Holanda, Nova Zelândia, Noruega, Polônia, Suécia e Reino Unido — emitiram declaração conjunta responsabilizando as autoridades russas pela morte de Navalny. Os signatários ressaltam o posicionamento da Corte Europeia dos Direitos Humanos sobre o tratamento desumano e degradante a que o dissidente foi submetido e a ausência de resposta adequada às suas reclamações.
A viúva, Yulia Navalnaya, atacou com firmeza: «Já sabia que Putin matou meu marido, agora temos provas», afirmou, referindo‑se à investigação conjunta do Reino Unido, Suécia, Países Baixos, França e Alemanha, que aponta para envenenamento por uma toxina letal encontrada em rãs‑dardo do Equador. O Kremlin rejeitou categoricamente tais alegações; o porta‑voz Dmitry Peskov qualificou as conclusões como “parciais e infundadas”.
Do ponto de vista estratégico, o relatório do Financial Times descreve um movimento deliberado: deslocar para a periferia europeia as técnicas de coação que antes serviam à campanha russa na Ucrânia, transformando vulnerabilidades sociais em vetores de desestabilização. É um jogo de xadrez onde se sacrificam peões — cidadãos economicamente fragilizados — para forçar reações e criar fissuras nas alianças ocidentais. Resta observar como os interlocutores em Ginebra responderão a essa nova camada de risco, e de que forma a arquitetura de segurança euro‑atlântica reforçará os seus alicerces para impedir que essa tectônica de poder resulte em erosões duradouras.






















