Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
As Olimpíadas de coragem e persistência ganharam mais um capítulo memorável para a Itália. Aos 18 anos, Flora Tabanelli conquistou a medalha de bronze no Big Air do Milano Cortina, transformando dor e incerteza em um feito esportivo de significado maior do que o pódio em si. Atrás apenas da canadense Megan Oldham (ouro) e da estrela chinesa Eileen Gu (prata), Tabanelli terminou a final a apenas 2,5 pontos da medalha de ouro.
Para o freeski italiano trata-se da primeira medalha olímpica na especialidade — um marco que soma-se ao desempenho geral da delegação, já com 23 pódios em Milano Cortina. O resultado ressoa não apenas como estatística, mas como sinal de uma disciplina que conquista espaço e história numa arena tradicionalmente dominada por nações maiores na modalidade.
O percurso até esse bronze teve contornos dramáticos. Há três meses Tabanelli estava em hospital aguardando uma avaliação para o joelho lesionado, temendo perder os Jogos em casa. Optou por consciência estratégica: abriu mão do slopestyle para focar no Big Air, uma decisão que demonstra maturidade e leitura de longo prazo — traços nem sempre associados a atletas tão jovens.
No palco de Livigno, com neve e vento impondo dificuldades desde o amanhecer e adiando a prova por mais de uma hora, a atleta bolognesa apresentou uma sequência com raras falhas. Na primeira tentativa marcou 90 pontos, posicionando-se próxima ao pódio. A segunda série rendeu 84 pontos e um avanço na classificação, até que um salto final perfeito, avaliado em 94,25 — o melhor da noite — assegurou-lhe o terceiro lugar, deslocando Kirsty Muir e fazendo explodir o Livigno Snow Park em aplausos contidos e significativos.
O desempenho de Tabanelli dialoga com outros triunfos recentes da equipe italiana: ecoa o valor simbólico do retorno de Federica Brignone após grave lesão e reforça a narrativa de resiliência que vem marcando esses Jogos. Também vale notar a presença de Maria Gasslitter, nona colocada, em sua segunda final em poucos dias — um indicativo de profundidade crescente no plantel nacional.
As condições severas de vento e temperatura complicaram a realização da final, que começou às 20h45 em vez das 19h30, e forçaram ausências importantes: Anouk Andraska e Mathilde Grémaud, esta última campeã recente do slopestyle, sofreram quedas nos treinos e foram forçadas a abandonar a disputa por lesões no punho e no quadril, respectivamente.
No plano humano, a medalha ganha contornos familiares: o irmão de Flora, Miron, não viveu sorte idêntica nas eliminatórias, mas o bronze transforma os Jogos em um êxito coletivo para a família. E, para o país, encerra um ciclo: até Pequim 2022 o melhor resultado no freeski havia sido o quinto lugar de Leonardo Donaggio — agora, o esporte alcança o pódio olímpico e amplia sua visibilidade e investimento potencial.
Mais do que um aplauso isolado, a conquista de Flora Tabanelli reforça uma lição persistente do esporte contemporâneo italiano: estruturas de formação, escolhas estratégicas e coragem pessoal se combinam para produzir momentos que ultrapassam o resultado e entram na memória coletiva. Em Livigno, sob vento e neve, a juventude italiana escreveu uma página nova para o freeski.





















