Faleceu aos 96 anos o grande Frederick Wiseman. O anúncio partiu da sua produtora, Zipporah Films, e da família. Em nota, destacaram que “por quase sessenta anos, Frederick Wiseman criou um corpo de obras sem igual, uma documentação cinematográfica de amplo alcance sobre as instituições sociais contemporâneas e a experiência humana cotidiana”, sobretudo nos Estados Unidos e na França.
Não foi informado o local exato de sua morte, mas a família observou que ele considerava Cambridge (Massachusetts), Northport (Maine) e Paris (França) como suas casas. Essa geografia íntima — entre a rigidez institucional americana e a latência cultural europeia — atravessou seus filmes como um fio condutor.
Wiseman sempre resistiu às categorias fáceis. Preferia chamar suas obras de “filmes” em vez de “documentários”, por achar o termo limitante. Ainda assim, seu nome ficou estreitamente ligado ao cinema-verité. Negava agendas políticas explícitas, mas não se furtou às controvérsias que suas escolhas éticas e formais suscitavam.
Seu primeiro longa, Titicut Follies (1967), permanece um marco doloroso: um retrato implacável do Bridgewater State Hospital para criminosos psiquiátricos no Massachusetts. O filme foi o único a ser proibido nos Estados Unidos por motivos distintos de obscenidade, imoralidade ou segurança nacional — a proibição foi motivada pela invasão da privacidade dos internos. O veto imposto pelo estado só foi revogado em 1991 e o filme foi depois exibido pela PBS.
Nos anos recentes, Wiseman viveu um notável renascimento crítico. Obras como In Jackson Heights (2015), retrato panorâmico de um dos bairros mais diversos do Queens, receberam elogios por sua riqueza narrativa e sensorial; o romancista Jay Neugeboren chamou-o de “suntuoso e tecido de tramas”. Já Ex Libris: The New York Public Library (2017) foi descrito por Manohla Dargis, no New York Times, como “um dos grandes filmes de uma carreira extraordinária”.
Entre as honrarias, figuram o Leone d’oro à carreira na Mostra de Veneza (2014) e o Oscar honorário à carreira em 2017 — reconhecimentos que coronam uma prática cinematográfica preocupada com a estrutura dramática e os detalhes do comportamento humano. Como ele mesmo disse ao receber o Leone d’oro, não via fronteira absoluta entre documentário e ficção: “Gosto de fazer filmes com estrutura dramática que abordem aspectos sutis e complexos do comportamento humano. A técnica é diferente, mas o resultado é o mesmo.”
A vida pessoal de Wiseman também foi citada na nota: ele foi precedido na morte pela esposa Zipporah Batshaw Wiseman, com quem foi casado por 65 anos e que faleceu em 2021. Deixa os filhos David (casado com Jennifer) e Eric (casado com Kristen Stowell), três netos — Benjamin, Charlie e Tess — e a colaboradora de longa data Karen Konicek, que trabalhou com ele por 45 anos.
Enquanto refletimos sobre sua obra, é impossível não ler Wiseman como um espelho do nosso tempo: seus filmes mapeavam o “roteiro oculto da sociedade”, revelando instituições e rotinas que moldam identidades coletivas. Era um cineasta solitário por escolha, um observador que preferia se retirar para deixar o mundo falar. O legado que nos deixa é a capacidade de transformar observação em arte e testemunho — um verdadeiro reframe da realidade através da câmera.
Fica, além dos filmes, a provocação ética de sua obra: até que ponto o cineasta pode expor sem explorar? Como o olhar molda o que chamamos de real? Essas questões, plantadas em cada tomada de Frederick Wiseman, continuarão a ressoar nos auditórios, nas salas de edição e nos cafés onde se discute cinema como forma de conhecimento e memória.






















