Uma segunda manga para ser apagada da memória: Atle Lie McGrath, que havia dominado a primeira prova, saiu dos trilhos na segunda descida do slalom e viu escapar a chance do ouro em Milano Cortina 2026. O episódio, ocorrido na clássica pista Stelvio di Bormio, teve contornos dramáticos: após a queda, McGrath atirou uma das varetas, desceu as fixações, rompeu as redes de proteção e caminhou sozinho rumo ao bosque, onde se deixou cair na neve e se desesperou.
O resultado da prova mais pareceu um espelho das condições da manhã: muita neve acumulada, que já havia provocado saídas de pista e quedas de diversos competidores, entre eles o jovem norueguês Lucas Braathen, campeão olímpico do gigante em outra ocasião. Mesmo diante da pista difícil, McGrath havia conseguido liderar a primeira manche com vantagem sobre seus rivais — até que, na segunda, a tensão e um erro técnico tiraram dele a medalha mais aguardada.
Quem aproveitou a janela de oportunidade foi o suíço Loic Meillard, que realizou uma segunda descida magistral e conquistou o ouro com o tempo combinado de 1:53.61 (56.73 + 56.88). Atrás dele, o austríaco Fabio Gstrein levou a prata e o norueguês Henrik Kristoffersen completou o pódio com o bronze. Meillard, penúltimo a sair, imprimiu uma prova de controle e coragem em condições que vacilaram muitos dos favoritos.
O episódio com McGrath não é apenas mais um fracasso esportivo; é uma imagem potente sobre a pressão imediata das grandes competições, sobre o impacto das condições climáticas nas provas de alto nível e sobre o conflito íntimo entre formação do atleta e expectativa pública. Ver um competidor tão jovem — e tão promissor — abandonar a pista e buscar, sozinho, um refúgio na neve fala tanto das exigências do calendário quanto do peso simbólico que a medalha olímpica carrega para federações, patrocinadores e torcedores.
Para além do drama individual, a prova em Bormio desenha uma narrativa mais ampla: o esqui alpino contemporâneo vive de margens pequenas, onde um erro define legados. A vitória de Meillard reforça a ideia de que regularidade e leitura da pista são, muitas vezes, mais decisivas do que a pura agressividade. Para McGrath, resta agora recompor-se — técnica e emocionalmente — e buscar lições que possam transformar um episódio traumático em matriz de crescimento.
Em termos simbólicos, a cena na Stelvio permanecerá como uma das imagens fortes destes Jogos: não apenas pela perda de uma medalha, mas pelo modo como o esporte, em sua face mais imediata, desnuda fragilidades e expectativas. A história de McGrath nas próximas temporadas dirá se aquele momento será um acidente de percurso ou o início de uma narrativa de resistência.






















