O episódio que teve como protagonista Alessandro Bastoni — cuja simulação resultou na expulsão de Kalulu no clássico entre Inter e Juventus — voltou a colocar em evidência não apenas uma ação isolada dentro de um jogo, mas o modo como o futebol contemporâneo transforma um erro numa crise pública.
O prefeito de Milão, Giuseppe Sala, torcedor nerazzurro, comentou o episódio nesta terça-feira, 16 de fevereiro, à margem da apresentação do relatório “Your Next Milano 2026”, elaborado por Assolombarda e Milano&Partners. “Certamente Bastoni errou”, disse Sala, antes de lembrar que há imagens históricas de outros jogadores famosos que também simularam e que agora se colocam em posição de censores. “Há filmagens de Chiellini e de Del Piero com simulações incríveis, e agora fazem os censores”, sublinhou.
O prefeito foi cuidadoso ao acrescentar que, sendo torcedor do Inter, assume sua parcialidade, mas advertiu para os efeitos colaterais dessa narrativa nas redes sociais: a fúria pública e a violência virtual que se seguem podem ter consequências reais para um atleta jovem e exposto.
Na mesma linha de defesa institucional, o diretor-geral do clube, Giuseppe Marotta, reagiu oficialmente diante da Lega e criticou o que considerou uma amplificação midiática desproporcional. Marotta lembrou que Bastoni já somou mais de 300 jogos na Serie A, é tido como patrimônio da seleção e nunca protagonizou episódios de gravidade. “Foi cometido um erro, mas quem não erra?”, disse, para em seguida contextualizar: fatores como o braço do jogador da Juventus e o apito imediato do árbitro contribuíram para uma decisão equivocada naquele momento.
Marotta também trouxe à tona uma leitura institucional mais ampla: a classe arbitrale permanece a mesma que, na visão do clube, já influenciou resultados importantes na temporada anterior — uma referência ao scudetto decidido por margens estreitas e a lances controversos como o não reconhecimento de um pênalti em Inter-Roma. Para o dirigente, o caso de Bastoni foi transformado numa “gogna mediatica” que extrapola o fato em si.
Até o ex-presidente Massimo Moratti comentou com tom quase paternal: “Bastoni cometeu uma simulação ‘entusiasmada’. Agora está no meio de uma tempestade, coitado do rapaz”.
Como analista, interessa-me deslocar a discussão do incidente para a sua dimensão cultural e institucional. A simulação é, historicamente, um elemento performativo do jogo: existe desde meados do século XX e faz parte das estratégias individuais e coletivas. Isso não a torna aceitável, mas ajuda a entender por que decisões isoladas ganham contornos de crise moral. Por um lado, há a necessidade legítima de preservar a integridade do esporte e punir comportamentos antidesportivos; por outro, é preciso evitar que o linchamento público substitua processos disciplinares claros e proporcionais.
Além disso, a explosão das redes sociais reconfigurou a punição simbólica: um lance mal sucedido pode apagar nuances contextuais e reduzir um atleta à imagem de um momento. Para clubes e federações, o desafio é duplo: aperfeiçoar mecanismos de revisão e comunicação, e ao mesmo tempo proteger jovens profissionais das consequências desproporcionais de um erro.
No balanço, o caso de Bastoni é sintomático. É um erro dentro de um jogo com fatores correlatos; tornou-se crise por uma convergência de mídia, memória e paixão clubística. Se quisermos que o futebol recupere um debate público mais racional, será preciso combinar transparência disciplinar, educação midiática e reconhecimentos históricos — inclusive sobre a recorrência da simulação entre figuras consagradas.
O episódio permanece em aberto: cabe às instâncias competentes decidir eventual punição e, ao público, compreender que um lance não resume a carreira de um atleta nem o futuro de um clube.






















