Roma — Em um movimento que reacende o debate sobre transparência, liberdade de expressão e interferência institucional, o Ministério da Justiça solicitou formalmente à ANM (Associação Nacional de Magistrados) a divulgação dos nomes dos financiadores privados do Comitê ‘Giusto dire No’, que organiza a campanha contra o próximo referendum da justiça 2026.
A carta, assinada por Giusi Bartolozzi, chefe de gabinete do ministério, foi protocolada e tornada pública pelo Partito Democratico. No documento, Bartolozzi pede ao presidente da ANM, Cesare Parodi, que esclareça a existência de “eventuais financiamentos” ao Comitê, alegando a necessidade de prevenir e contrastar potenciais conflitos de interesse entre magistrados em atividade e privados apoiadores do movimento pelo “No”.
Segundo a missiva, a solicitação foi motivada por um atestado isentivo de avaliação recebido pelo ministério, que cita uma interpelação parlamentar do deputado Enrico Costa (Forza Italia) — apresentada já no dia 8 de janeiro — na qual se afirmaria que o Comitê “Giusto dire No”, promovido pela ANM, teria recolhido donativos de milhares de cidadãos que aderiram voluntariamente. O ministério entende que esse fluxo de recursos poderia configurar uma forma indireta de financiamento da própria associação profissional.
O pedido de esclarecimento foi registrado menos de 24 horas após manifestações políticas que inflamaram o clima público: o magistrado Calogero Gratteri desencadeou uma polêmica ao associar o voto “Sim” a imputados e a uma “maçonaria desviada”, gerando repúdio de partidos como o Fratelli d’Italia, que classificaram as declarações como “indignas” e pediram retratação imediata.
A solicitação do Ministério da Justiça alega objetivo de transparência: “sottopongo alle Vostre valutazioni l’opportunità di rendere noto alla collettività, nell’ottica di una piena trasparenza, gli eventuali finanziamenti ricevuti dal Comitato ‘Giusto dire No’ da parte di privati cittadini” — trecho citado na carta de Bartolozzi. As autoridades sustentam que a divulgação impediria suspeitas sobre a arquitetura financeira que poderia influenciar posições institucionais.
Por outro lado, dirigentes e parlamentares das oposições interpretam a iniciativa como um gesto de pressão institucional e um potencial instrumento de intimidação política: para eles, exigir publicamente listas de doadores de um movimento cívico pode ferir princípios básicos de liberdade de associação e voto, além de criar um efeito inibidor sobre a participação democrática.
Na prática, a controvérsia coloca em evidência dois alicerces em tensão: o direito à transparência pública, especialmente em temas que tocam a credibilidade do sistema judiciário, e o direito dos cidadãos e associações de financiarem campanhas políticas sem sofrer retaliações ou exposição indevida. É uma ponte delicada entre o peso da caneta administrativa e a liberdade dos movimentos civis.
Fontes internas da ANM indicam que Cesare Parodi vai avaliar a solicitação e responder formalmente, ponderando proteção de dados pessoais e obrigações de transparência. Parlamentares do PD e de outras bancadas já exigem que eventual resposta seja acompanhada de garantias jurídicas para evitar manipulações partidárias do processo.
À medida que a discussão sobre a reforma judicial avança para o plebiscito de 2026 — onde está em jogo, entre outros pontos, a separação das carreiras entre magistratura julgadora e magistratura de instrução —, os episódios recentes reforçam a necessidade de regras claras sobre financiamento de comitês, limites de intervenção administrativa e um quadro que preserve tanto a transparência quanto a liberdade de expressão política.
Como correspondente focado na intersecção entre decisões de Roma e vida dos cidadãos, acompanharei a resposta oficial da ANM e eventuais medidas legais que definam se esse pedido do Ministério da Justiça configura mera diligência administrativa ou um ato que pode criar precedentes na arquitetura institucional do debate público.






















