Por Marco Severini — Em um movimento que reverbera além das galerias, o British Museum procedeu à remoção da palavra Palestina de painéis, mapas e legendas de exposições dedicadas ao antigo Oriente Próximo, após uma correspondência formal do grupo jurídico UK Lawyers for Israel (UKLFI) ao diretor Nicholas Cullinan. O episódio reacende um debate essencial: quem define os nomes da história quando os alicerces da diplomacia cultural ficam frágeis?
O museu acusa tratar-se de uma “revisão terminológica” destinada a evitar referências consideradas anacrônicas em determinados contextos históricos, propondo termos alternativos como Canaã ou cananeu para períodos remotos. Entre os exemplos apontados estão mapas que indicavam a costa oriental do Mediterrâneo como Palestina e um painel sobre os hicsos cuja referência a “descendência palestina” foi alterada para “descendência cananéia”.
Para o UKLFI, argumenta a carta, o uso do termo Palestina em recortes cronológicos datados entre 2000 e 300 a.C. seria anacrônico e poderia ter o efeito de “apagar” os reinos de Israel e Judá, além de “reformular erroneamente” as origens históricas do povo judeu. O museu, por sua vez, declarou que não age em resposta direta a pressões externas e que utiliza a terminologia das Nações Unidas quando exibe mapas de fronteiras modernas, além de empregar “palestino” como identificador cultural ou etnográfico quando apropriado.
Acadêmicos e ativistas veem, contudo, nesse ajuste uma manobra com implicações políticas significativas. A professora de estudos clássicos da Open University, Marchella Ward, afirmou que seguirá usando a palavra Palestina em seus trabalhos, denunciando a operação como parte de um plano mais amplo de cancelamento dos palestinos e de uma narrativa que, segundo críticos, converge com decisões políticas contemporâneas de Tel Aviv e de seu governo.
Do ponto de vista institucional e simbólico, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro cultural: mudar nomes é redesenhar fronteiras invisíveis. A terminologia em museus não é neutra; ela estrutura memórias, legitima presenças e sanciona ausências. Substituir Palestina por Canaã em contextos arqueológicos pode ser justificado por critérios cronológicos, mas também abre espaço para leituras políticas sobre pertencimento e continuidade.
Observadores com experiência em diplomacia cultural lembram que instituições museais frequentemente caminham na confluência entre exigências acadêmicas e pressões políticas. A tática de revisar legendas e mapas, se repetida, pode produzir um redesenho sutil — quase tectônico — das narrativas históricas, privilegiando determinadas genealogias e obscurecendo outras.
Ao mesmo tempo, a posição oficial do British Museum — de seguir normas internacionais para a cartografia moderna e de ajustar terminologia em casos de anacronismo — apresenta um argumento técnico que busca preservar a autoridade científica. Resta, porém, um problema prático e ético: quem arbitra essas escolhas quando o resultado altera a percepção pública de povos e territórios?
O episódio exigirá, nas próximas semanas, mais transparência por parte do museu e um diálogo aberto com historiadores, arqueólogos e representantes culturais. No fim, a disputa revela que a memória é também um campo de poder — e, como em um jogo de xadrez bem estudado, cada alteração terminológica representa um movimento com consequências estratégicas de longo alcance.






















