Por Marco Severini — Em mais um movimento do que poderia ser chamado de manobra estratégica no grande tabuleiro do Oriente Médio, o secretário de gabinete de Israel, Yossi Fuchs, declarou publicamente que o movimento Hamas dispõe de 60 dias para se desarmar por completo, sob pena de Tel Aviv retomar uma ofensiva em larga escala na Faixa de Gaza. A fala do responsável governamental representa um alerta claro: a janela temporária aberta por negociações pode fechar-se rapidamente se não houver avanços verificáveis no processo de desmilitarização.
As palavras de Fuchs ecoam as posições já manifestadas pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu após seu encontro na Casa Branca com o presidente Donald Trump. Em Brasília do poder, como em qualquer sala onde se desenha estratégia de Estado, cada declaração é um movimento pensado para moldar os limites do possível. Fuchs afirmou que a exigência americana por um prazo de 60 dias foi acolhida — “li stiamo rispettando“, disse ele — e avisou que a continuação das hostilidades será reavaliada ao término desse prazo.
Na retórica oficial israelense, o foco recai nas armas de fogo usadas nos ataques de referência: Fuchs destacou que os fuzis de assalto, entre eles os famosos AK-47, seriam responsáveis por grande parte das violações que motivaram a resposta de Israel, e que sua presença entre as fileiras de militantes é incompatível com qualquer acordo de segurança sustentável. Essa ênfase materializa uma lógica simples do poder: reduzir a capacidade letal do adversário é condição para reequilibrar a ameaça percepcionada pelas autoridades de segurança.
Fontes militares israelenses mencionam que a IDF considera inviável um desarmamento completo sem o uso da força, o que abre a porta para uma eventual operação concebida para a primavera. Para Tel Aviv, a ação seria tida como necessária para neutralizar arsenais e infraestruturas paramilitares. No entanto, o cenário diplomático é mais complexo — Washington, enquanto aliado estratégico, manifesta apreensão sobre escaladas que possam ampliar a crise regional, e o próprio encontro entre Netanyahu e Trump deixou claras nuances de convergência e tensão.
Do ponto de vista geopolítico, estamos diante de um jogo de alta tensão onde os prazos temporais funcionam como peças que se movem com precisão calculada. Exigir 60 dias equivale a desenhar uma linha de corte no mapa de influências: se o adversário não cumprir, o movimento seguinte já está predefinido. Essa é uma tradução moderna da Realpolitik — a diplomacia dos prazos e das condicionantes militares.
Importa sublinhar que declarações públicas, sobretudo em fases de conflito, têm duplo efeito: pressionam interlocutores e preparam a opinião doméstica para possíveis desdobramentos. A menção repetida à inexistência de armamento pesado em Gaza — “não há artilharia, nem tanques” — é utilizada por Tel Aviv para sustentar que uma eventual nova ofensiva teria foco em desarmamento de insurgentes, e não em confrontos convencionais entre exércitos.
Como analista, enxergo essa sequência como um redesenho de fronteiras invisíveis da influência regional — um movimento que combina ameaça de força, calendário político e esperança de capitulação do adversário. A tática de conceder um prazo é, simultaneamente, um teste e uma armadilha: se Hamas ceder parcialmente, pode abrir-se espaço para negociações; se resistir, Tel Aviv já prepara os alicerces para uma operação subsequente.
Nos próximos dias, será essencial observar sinais concretos de desarmamento, mecanismos de verificação admitidos por ambas as partes e o papel que Washington e outros atores regionais irão desempenhar. O equilíbrio entre dissuasão e escalada permanece frágil — e o movimento decisivo no tabuleiro poderá redefinir a estabilidade da região por tempo considerável.





















