Na Conferência de Segurança de Munique (Monaco) deste ano houve uma frase que resume bem a tensão entre discurso e realidade: o primeiro-ministro britânico Keir Starmer qualificou a ação russa como um “erro estratégico”. No mesmo pronunciamento, porém, admitiu que Moscou está ampliando o seu exército e a base industrial a ritmo acelerado, no calor do conflito. Diante dessa contradição, a Europa enfrenta um espelho desconfortável: ou tratou-se de um erro colossal, ou estamos perante uma máquina estatal que, queira-se ou não, tem demonstrado capacidade de resistir.
O ponto mais perturbador é que a União Europeia parece ter subestimado a natureza do adversário. A aposta em sanções e em declarações condenatórias não substituiu aquilo que, no campo da geoeconomia e da guerra industrial, faz a diferença: aço, energia barata e capacidade produtiva. Ao sacrificar parte de sua coluna vertebral energética, a Europa fragilizou a competitividade industrial e agora tenta, às pressas, reconstruir um complexo militar-industrial que deixou atrofizar por anos.
Quando o chanceler Friedrich Merz lembra que o PIB da UE é “dez vezes” o russo, trata-se de uma consolação contábil. A guerra industrial não se mede apenas em números nominais, mas em paridade do poder de compra, custos energéticos, capacidade de mobilização estatal e robustez das cadeias produtivas. Nesses vetores, Moscou mostrou resiliência que Bruxelas não previu: uma tectônica de poder que não obedece apenas a estatísticas de curto prazo.
Mais inquietante ainda foi a observação de Starmer de que a paz poderia permitir à Rússia rearmar-se mais rapidamente, tornando-a mais perigosa. Este deslocamento semântico — onde a paz passa a ser vista como risco e a continuação do conflito como forma de estabilidade — sinaliza a imposição de uma lógica de mobilização permanente. No tabuleiro estratégico, transformar a normalidade diplomática em ameaça é aceitar a escalada como novo status quo; é um lance que, a prazo, aumenta a probabilidade de erro de cálculo.
Em termos materiais, Moscou tem sinalizado suas intenções com sistemas como o Oreshnik, um míssil balístico de alcance médio que, segundo fontes abertas, incorpora velocidades hipó-sônicas na fase terminal e configurações múltiplas. É um sinal claro de que as escalas de deterrência existem — e que a física do armamento não se curva à retórica de salas de conferência.
Na mesma conferência, o secretário de Estado americano Marco Rubio buscou tranquilizar aliados falando em civilização compartilhada. Contudo, a ausência dos Estados Unidos em momentos-chave do confronto ucraniano evidenciou que Washington calibra seu envolvimento, deixando a Europa exposta. A presidente Ursula von der Leyen falou em fortalecimento industrial europeu, mas a realidade permanece assimétrica: a Europa financia, os EUA produzem. Esse desequilíbrio estrutural torna pretensiosas as declarações de autonomia estratégica.
Por fim, já se fala, abertamente, de cooperação nuclear e de aprofundamento de vínculos estratégicos. São movimentos que revelam um redesenho de fronteiras invisíveis e um rearranjo dos alicerces da diplomacia. A hora exige um jogo de longo prazo: reconstruir capacidade industrial, repensar segurança energética e restabelecer linhas de produção críticas. Sem isso, qualquer retórica de poder permanecerá frágil — um castelo que rui perante o primeiro impacto real.
Em suma, a conferência de Munique expôs uma verdade incômoda: a Europa confundiu moralismo com poder material. Agora, no tabuleiro, cada jogador avalia seus recursos e faz seus movimentos. Resta saber se haverá, por parte de Bruxelas, uma estratégia coerente de recomposição ou apenas discursos que mascaram a impotência.





















