16 de fevereiro de 2026 — Por Marco Severini, Espresso Italia. Em um movimento calculado no tabuleiro da geopolítica, Teerã sinalizou disposição para a diluição do urânio enriquecido ao nível de 60% e para o restabelecimento de inspeções da AIEA. O anúncio surge às vésperas de um novo ciclo de conversações indiretas entre Estados Unidos e Irã, agendadas para amanhã em Genebra, com mediação do Sultanato de Omã.
Fontes oficiais iranianas confirmaram que o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, encontrou-se em Genebra com o diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, para tratativas técnicas preparatórias. Em declarações medidas e cheias de cautela, Teerã disse estar pronto a aceitar inspeções mais frequentes, mantendo, porém, firmes as suas “linhas vermelhas” no domínio dos mísseis balísticos.
Do lado norte-americano, a liturgia diplomática tem uma face mais rígida: Washington — com o impulso político de Israel — exige concessões adicionais que tocam tanto o aparelho de dissuasão balística iraniano quanto a sua capacidade de proyectar influência por meio de forças proxies na região. Entre as demandas constam limites ao número e alcance dos mísseis balísticos e o fim do apoio a grupos armados como condição para qualquer relaxamento mais amplo das tensões.
Paralelamente às vias diplomáticas, os Estados Unidos têm desdobrado uma estratégia de aperto econômico destinada a reduzir substancialmente as receitas petrolíferas de Teerã — com foco especial nas exportações para a China. Esse arsenal de sanções e restrições comerciais é interpretado por analistas como uma tentativa explícita de produzir as condições internas para uma mudança de regime no Irã, uma hipótese que alimenta a apreensão estratégica nos corredores diplomáticos.
O próprio tom das negociações foi descrito por interlocutores iranianos como “negociar com desconfiança”: há um reconhecimento pragmático de que elementos técnicos — como a diluição do urânio e a cooperação com a AIEA — podem reduzir riscos imediatos, enquanto as questões estruturais relativas aos mísseis e ao papel regional permanecem um ponto de ruptura.
Não é menor o componente militar dessa equação. Relatos sobre preparativos das Forças Armadas dos EUA para operações prolongadas sugerem que Washington se prepara para um cenário em que um confronto escalado entre noções contrapostas de segurança não seja um episódio breve, mas uma sequência de golpes e contragolpes com efeito duradouro na tectônica de poder do Oriente Médio.
Do ponto de vista estratégico, estamos diante de um momento em que a diplomacia obra sobre alicerces frágeis. A oferta iraniana de diluição do urânio enriquecido e a disposição para inspeções técnicas são movimentos que visam desconstruir, de forma calculada, o pretexto para uma ação militar imediata. Ao mesmo tempo, a pressão econômica norte-americana procura redesenhar fronteiras invisíveis de influência—um duelo de instrumentos de poder, financeiro e diplomático, que define o novo desenho do tabuleiro.
Como analista, observo que o equilíbrio entre contenção e coerção determinará se esse ciclo de negociações produzirá redução sustentada do risco nuclear ou se traduzirá apenas em uma trégua temporária. Em termos de Realpolitik, a chave permanece na capacidade dos mediadores — sobretudo Omã e agências multilaterais como a AIEA — de transformar medidas técnicas em garantias políticas duradouras, evitando que a escalada econômica gere rupturas de difícil reparação.
Em suma: Teerã dá um passo técnico; Washington aperta o laço econômico. O desfecho dependerá da conjugação entre inspeções robustas, garantias verificáveis e um entendimento mínimo sobre a aceitabilidade da postura regional iraniana. Até lá, o tabuleiro permanece em movimento.






















