Por Marco Severini — Em um movimento que altera o tabuleiro político ucraniano, as autoridades de combate à corrupção detiveram o ex-ministro da Energia German Galushchenko enquanto ele tentava deixar o país de trem. A prisão foi anunciada pela autoridade anticorrupção ucraniana NABU, que enquadra o caso dentro da operação conhecida como “Midas“, centrada em um esquema de propinas que supera os US$100 milhões.
Segundo a investigação, o ex-ministro — que chefiou o Ministério da Energia entre 2021 e 2025 e ocupou brevemente a pasta da Justiça entre julho e novembro de 2025 — é acusado de lavagem de dinheiro e de participação em uma organização criminosa. As apurações apontam para um circuito que envolve altos funcionários e empresários do setor energético, com fluxos de caixa em espécie e estruturas de blindagem financeira.
A NABU informou que a prisão ocorreu no momento em que Galushchenko tentava cruzar a fronteira do Estado. O caso ganhou maior dimensão após a descoberta, em novembro de 2025, do vasto esquema de pagamentos ilícitos. Em relatório preliminar, a autoridade antissuborno aponta que, durante a gestão do ex-ministro, a agência nacional de energia atômica teria recebido mais de USD 112 milhões em numerário provenientes de atividades ilegais no setor.
O inquérito está ligado diretamente ao empresário Timur Mindich, figura pública que trabalhou no passado com o presidente Volodymyr Zelensky em projetos televisivos. Descrito nos autos como o suposto “rei das propinas”, Mindich teria fugido para Israel e permanece, até o momento, foragido. As buscas em sua propriedade teriam revelado objetos que cristalizam o caráter opulento e opaco do circuito investigado — entre eles, um bidê de ouro e vários maços de notas de €200 escondidos em armários.
A primeira-ministra Denysia Svyridenko (Svyridenko) comunicou a suspensão do ex-ministro do cargo executivo “pela duração das investigações”, medida que visa preservar a funcionalidade do governo enquanto a apuração segue. Galushchenko, 52 anos, havia se colocado publicamente à disposição para se defender, afirmando que recorrerá às vias legais para provar sua inocência.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro institucional: a detenção de um nome de perfil ministerial altera as amarras de confiança interna e projeta ondas sobre o relacionamento entre Estado, grandes fornecedores de energia e redes empresariais de influência. A revelação de volumosos pagamentos em espécie para atores vinculados a empresas do setor energético sugere falhas nos alicerces da governança e expõe fragilidades que adversários e parceiros internacionais observam com atenção.
Enquanto a investigação avança, permanecem questões cruciais: até que ponto as práticas aqui examinadas penetraram instituições-chave? Como reagirão as principais instituições financeiras e parceiros ocidentais diante do risco reputacional? Em termos geopolíticos, a tectônica de poder em Kiev sofre um redesenho invisível — movimentos sutis, porém com potencial de desestabilizar alianças internas essenciais em tempo de guerra.
Em resumo, a prisão de German Galushchenko não é apenas um episódio de justiça criminal: é um lance de alto risco no jogo político ucraniano que pode redefinir responsabilidades, expor cadeias de interesse e obrigar o Estado a reforçar mecanismos de transparência. Como em uma partida de xadrez bem jogada, cada peça retirada do tabuleiro altera as linhas futuras de ataque e defesa.
Nota técnica: informações contidas nesta matéria decorrem dos comunicados oficiais da NABU e de reportagens públicas sobre o caso “Midas”, documentadas desde novembro de 2025.





















