Por Marco Severini — A liderança de Keir Starmer enfrenta uma nova fase de tensão política que pode redesenhar as linhas de influência dentro do Partido Trabalhista. No centro do terremoto está o think tank Labour Together, identificado como próximo ao eixo do New Labour e à herança política de Tony Blair, instituição que teve papel relevante na consolidação do poder de Starmer nos últimos anos.
Fontes e documentos indicam que o centro de estudos teria desembolsado cerca de 30 mil libras para contratar a consultoria APCO Worldwide com a finalidade de recolher informações sobre a redação do The Sunday Times. O objetivo declarado era identificar as fontes de uma investigação jornalística que relatava supostos financiamentos não declarados a favor da campanha trabalhista de 2024.
O episódio ganha contornos mais complexos pelo histórico recente: o think tank foi dirigido por Morgan McSweeney, ex-chefe de gabinete influente do primeiro-ministro, que deixou o cargo após serem tornadas públicas suas ligações com o ex-ministro Peter Mandelson — nome que já havia exposto Starmer a críticas por causa das conexões do antigo titular com o financista americano Jeffrey Epstein.
Do ponto de vista institucional, a movimentação configura um ataque às bases da liberdade de imprensa, segundo opositores. Figuras conservadoras de destaque, como Kevin Hollinrake, qualificaram as ações como uma tentativa deliberada de intimidação da imprensa. O Scottish National Party foi além e pediu a exoneração de Josh Simons, que presidia o think tank à época dos fatos e atualmente ocupa a vice-coordenação do Gabinete do Primeiro-Ministro.
Em resposta pública, a ministra da Tecnologia, Liz Kendall, prometeu investigações internas, mas a oposição contesta o ritmo e a amplitude das apurações, interpretando a atitude como tardia e insuficiente. No plano interno do Partido Trabalhista não há, até agora, sinais claros de uma moção de desconfiança imediata, porém o xadrez político aponta para alicerces mais frágeis do que o discurso oficial tenta transmitir.
Keir Starmer reiterou sua intenção de permanecer até as eleições gerais de 2029, mas seu mandato ficará condicionado por testes eleitorais de curto prazo: as eleições municipais de maio e a eleição suplementar marcada para 26 de fevereiro em um distrito do norte da Inglaterra — tradicional reduto trabalhista — podem oferecer leitura precoce sobre a reação do eleitorado.
Nos bastidores começam a circular nomes considerados capazes de mediar as correntes internas: entre eles o ministro da Defesa, John Healey, apontado pela imprensa como figura de equilíbrio entre as diversas tendências do partido. A hipótese de sucessão, por ora, funciona como peça de pressão no tabuleiro: movimentações calculadas que podem acelerar ou conter um redesenho de liderança.
Este episódio remete a uma tectônica de poder onde a diplomacia da informação e as operações de influência são jogadas como peças numa partida de alto risco. A verificação completa dos fatos e a resposta institucional determinarão se o Labour consegue restabelecer controle sobre suas estruturas ou se o incidente abrirá fraturas duradouras no partido e na sua reputação perante a opinião pública e a imprensa.
Em suma, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro político britânico: uma instituição próxima ao poder, recursos discretos e métodos de recolha de informação que desafiam os alicerces da liberdade de imprensa, num momento em que a estabilidade das lideranças se mede não apenas por discursos, mas pelos resultados eleitorais que se avizinham.





















