O centenário da morte de Piero Gobetti – jovem turinês que faleceu em Paris antes de completar vinte e cinco anos – é uma ocasião para celebrar e, sobretudo, para questionar. Gobetti permanece como um desconforto persistente na memória política italiana: um lente crítica que força a reconhecer aquilo que por décadas foi evitado, as circunstâncias que abriram caminho a modelos autoritários e a possibilidade, sempre latente, do seu retorno.
Muito do debate contemporâneo sobre sua atualidade concentra-se em uma fórmula que retorna como um refrão incômodo: o fascismo como “autobiografia da nazione”. Não se trata de uma absolvição automática nem de um rótulo que aponta só para indivíduos. Para Gobetti, esse conceito é um diagnóstico sobre a sociedade inteira: o fascismo não é apenas um regime imposto, é um clima, um modo de estar no mundo enraizado nas práticas sociais e políticas.
Entre a ruptura e a fadiga
Os anos entre 1919 e 1925 – do biennio rosso à emergência e consolidação do regime fascista – foram marcados por convulsões políticas, pela fundação do Partido Comunista e por conflagrações sociais. Mas, segundo a leitura gobettiana, houve também algo mais silencioso: o desgaste de uma ideia de política e o esgotamento de uma classe dirigente que, em parte, se acomodou e, em parte, foi eliminada. Assim como em uma obra mal construída, o colapso aconteceu não só por um único erro estrutural, mas também pela negligência cotidiana na manutenção dos alicerces.
Um antifascismo que é questão moral
Para Gobetti, a luta contra o fascismo começa antes das praças e dos partidos. É uma questão moral, quase religiosa em seu fervor: um chamado ao estilo, ao instinto crítico, à coragem cívica. Ele aponta para problemas que soam familiares hoje: preguiça cívica, infantilismo político, ausência de espírito crítico. Não são defeitos episódicos, mas hábitos sedimentados que tornam possível a normalização do autoritarismo.
Na sua leitura, muitos italianos tornaram-se coniventes ou apáticos não por coerção exclusiva, mas por uma espécie de servidão voluntária que se instalou nas fibras da nação. O fascismo organiza vícios já existentes — retórica vazia, bajulação, demagogia, trasformismo — transformando-os em sistema.
O peso da caneta e os alicerces da democracia
Gobetti observou que Mussolini poderia ser visto, ironicamente, como um “fato de ordinária administração”. A gravidade não está apenas na personalidade de um líder, mas no que o regime torna possível: a sistematização de práticas que corroem a autonomia democrática. É aqui que reside a lição pública para os cidadãos, imigrantes e descendentes italianos que ainda hoje vivem sob as regras traçadas por Roma: a defesa da liberdade exige vigilância diária, uma construção lenta de direitos e instituições, e a recusa da complacência.
Como repórter e ponte entre o poder e a sociedade, vejo em Gobetti uma ferramenta de diagnóstico: derrubar barreiras burocráticas, fortalecer o espírito crítico e reconstruir a cidadania são obras de engenharia política. Não se trata de nostalgia ou de mera erudição: é um plano prático para evitar que as rachaduras se transformem em colapso.
O centenário não deve ser apenas lembrança formal. Serve para reabrir o debate sobre os alicerces da vida pública, sobre a responsabilidade coletiva e sobre o papel da mídia e das instituições na preservação da democracia. Gobetti nos lembra que o combate ao antifascismo é, antes de tudo, uma obra de construção civil da cidadania.
Giuseppe Borgo, Espresso Italia





















