Desde a Galleria Vittorio Emanuele, Carlo Cracco oferece uma leitura gastronômica dos Jogos: não apenas um cardápio, mas uma narrativa cultural que conecta Milão, tradição e a presença internacional trazida pelas competições. O chef, originário do Vêneto e milanês por adoção, tem recebido atletas e convidados em um espaço que, por algumas semanas, passou a funcionar como Omega House.
Cracco recorda que viveu os Jogos já no papel de condutor da tocha, no dia 5 de fevereiro — “foi uma experiência incrível, às vezes difícil de descrever”, disse. Essa vivência pessoal, soma-se à posição privilegiada do seu restaurante no coração da cidade, para oferecer observações sobre o ambiente que se formou a partir do evento: “até duas semanas atrás não se respirava tanto a atmosfera olímpica; de repente houve um crescendo rápido: iluminação, pessoas de todo o mundo, e uma leveza no ar”.
O que se serve a esses hóspedes? Segundo Cracco, a intenção é apresentar as “prelibatezze italiane” de forma direta e acessível. O prato escolhido como símbolo dessa proposta é o riso al salto — o risoto de açafrão frito, resgatado como petisco limpo, porção individual, e servido com um fio de molho de carne ou com uma opção vegetal para vegetarianos. “É a essência de Milão”, afirma o chef, resumindo uma ideia que liga produto, memória local e praticidade para atletas em trânsito.
Ao comentar sua relação com a cidade que o acolheu, Cracco descreve uma experiência de integração e troca: chegou a Milão aos 21 anos com a imagem mítica da grande cidade e encontrou, desde o início, uma cidade “vibrante, enérgica, aberta”: uma metrópole que recompensa quem se dedica a ela, apesar de seus defeitos. Essa leitura se estende ao legado que os eventos de grande porte deixam: “o legado é um só: nada é impossível. Vimos primeiro a Expo e agora os Jogos; as duas experiências ensinam a pensar grande e a mirar além”.
Como observador atento das interseções entre esporte e sociedade, Cracco não trata o esporte apenas como espetáculo: “o esporte é, para mim, a alma das coisas. Praticá-lo ensina valores úteis na vida — disciplina, precisão — e segui-lo oferece grandes feitos, atletas que nos levam a sonhar”. Entre os momentos que lembra com carinho estão encontros com campeões como Alberto Cova (ouro em Los Angeles 1984) e o esquiador Alberto Tomba, figuras que simbolizam para ele o fascínio do esporte italiano.
Fora da cidade, a montanha permanece um refúgio. Cracco aponta Le Melette, perto de Asiago, como “a montanha dos vicentinos”: as pistas mais próximas, fins de semana em família e memórias que ligam ingredientes e territórios. E o que nunca falta à mesa quando vai à altitude? “A polenta. É a coisa mais boa do mundo”, observa com a simplicidade de quem preserva raízes regionais.
Por fim, sobre a dimensão do tempo na cozinha — tema caro a quem interpreta o ofício como gestão e precisão — Cracco sublinha que o tempo é fundamental: “tempo e precisão caminham juntos. Ser rápido e exato é crucial num ambiente onde cada segundo pode mudar a experiência do cliente”. É uma frase que funciona como síntese: na confluência entre hospitalidade, performance esportiva e promoção cultural, o restaurante de Cracco se transforma em observatório e palco de uma Milão que se reinventa.





















