San Siro voltou a ser palco de um jogo carregado de significado esportivo e simbólico — e, paradoxalmente, de um gesto que desbanca a ética em campo pouco dias após a arena ter sido protagonista na inauguração dos Jogos. Na vitória do Inter sobre a Juventus houve futebol de alto nível, ritmos europeus e uma cena que ofuscou parte do que se passou ao longo dos 90 minutos: a simulação de Alessandro Bastoni.
O gesto do defensor nerazzurro condicionou a partida. Bastoni simulou ter sido atingido por Kalulu, pediu o cartão e celebrou quando o árbitro La Penna mostrou o cartão vermelho ao jogador bianconero. Foi uma cena feia e desconfortável: o atleta não só fingiu a agressão como reagiu como se tivesse marcado um gol quando a expulsão foi decretada. A ação, filmada e comentada in loco, coloca em evidência uma fragilidade do sistema: a VAR não pôde intervir naquele lance e os árbitros, muitas vezes, ficam expostos a artifícios que os jogadores lançam deliberadamente.
O episódio ganha contornos ainda mais delicados porque aconteceu na frente de figuras do futebol italiano — entre elas, Gattuso — e porque declarações públicas que buscam amenizar o ato, como as de Chivu, pouco ajudam. Não é apenas uma questão disciplinar: é uma questão de imagem e de integridade do espetáculo. O Inter, no entanto, não precisa desse tipo de expediente para justificar sua liderança. A equipe está na ponta com mérito técnico e coletivo.
Desde a derrota na terceira rodada, há cerca de cinco meses, quando perdeu para a Juventus, o time nerazzurro mudou de pele. Elevou a linha defensiva, refinou movimentos ofensivos e construiu uma identidade mais nítida: solidez atrás e poder de fogo à frente. O jovem treinador romeno demonstra sintonia com a diretoria e vem apagando as sombras das semanas finais da última temporada, quando o clube viu escapar o scudetto e a final da Champions.
O triunfo em San Siro vale muito na tabela e, simbolicamente, também cura uma antiga aversão do clube a grandes duelos: vencer a Juventus em um jogo de alta intensidade confirma que um novo ciclo pode estar se desenhando. Ainda assim, o sabor da vitória tem amargor. Até a expulsão, a Juve havia demonstrado maior consistência e vontade.
Do outro lado, Spalletti parece estar no caminho certo com sua equipe, mesmo que os resultados recentes não o tenham favorecido. A distância na classificação pode diminuir: o Milan ainda tem um jogo a recuperar e pode encurtar para cinco pontos se vencer o Como no meio da semana.
Por fim, as imagens da briga no túnel dos vestiários, a celeuma em campo e as reações acaloradas post-jogo revelam o quanto as tensões de uma partida transcendem os 90 minutos. O futebol moderno, sobretudo na Itália onde clube e torcida carregam memória e identidade, precisa reencontrar práticas que valorizem o confronto como espetáculo limpo. A vitória do Inter tem valor esportivo indiscutível; que o aprendizado sobre integridade venha junto.






















