Milano Cortina 2026 ofereceu, num único instante, uma imagem que vale mais que manchetes: Ilia Malinin olhando o pai, e o pai — Roman Skorniakov — cabisbaixo, mãos nos cabelos. No placar, o veredito que ninguém havia previsto: 156,33 pontos no programa livre, um 15º lugar na parcela final da prova que empurrou o campeão dos últimos três anos para a 8ª posição geral. Fora do pódio, longe do monte Olímpico onde se esperava ver a bandeira de um predestinado, ficou um silêncio carregado.
O quadro tem dimensão psicológica. Skorniakov, que representa um resultado olímpico histórico para o Usbequistão (19º como melhor colocação) é, ao mesmo tempo, o treinador do filho. Ao seu lado, Tatiana Malinina — ex-patinadora que emprestou o sobrenome ao primogênito nascido nos EUA — também participa da formação técnica de Ilia Malinin. Tatiana, 8ª em Nagano 1998, e agora a história parece fechar um círculo que magoa ambos: aquilo que é legado torna-se fardo.
Marcella Marcone, psicanalista e psicóloga consultada, sintetiza o nó com precisão clínica: a identificação é total. O nome da mãe, o resultado da mãe. Treinar com os pais é uma faca de dois gumes — e no caso de Malinin, o trabalho sobre os saltos foi justamente onde a queda física encontrou um reflexo simbólico. O que era projeto de liberdade e realização pessoal pode converter-se, quando os papéis se confundem, em prisão emocional.
História do esporte é pródiga em favoritos que sucumbem à própria narrativa de inevitabilidade. De Serena Williams em Nova York a Robertina Vinci, passando pelo coração coletivo dos All Blacks ou pelas surpresas olímpicas que viraram lendas — o “milagre sobre o gelo” de Lake Placid, ou o caso de Simone Biles em Tóquio — há sempre um elemento comum: a pressão externa e o limite interno. Pressão é, portanto, uma palavra chave para entender a noite de Malinin no Forum.
Durante os dias anteriores, a figura pública de Ilia Malinin tinha também um recanto de intimidade: o pijama do Snoopy com que havia tomado café no refeitório virou símbolo de um atleta ainda jovem diante de uma máquina de mídia. Às portas do abraço coletivo, preferiu-se o recolhimento no vilarejo olímpico, protegido pelos companheiros e por um silêncio que tenta, em vão, recompor o tecido rompido da exibição.
Como analista esportivo, penso além do erro técnico: interessa-me o que a queda diz sobre a relação entre formação de atletas e memória familiar. A estrutura de clubes, federações e trajetórias pessoais cria mosaicos onde o êxito individual passa a sustentar expectativas comunitárias e identitárias. Em Itália e na Europa, onde o esporte é também patrimônio cultural, estas figuras parentais nos esportes revelam tensões entre desejo de continuação e necessidade de emancipação do jovem atleta.
O episódio de Milano Cortina 2026 não é apenas um tropeço num campeonato: é um espelho. Reflete a fragilidade de um fenômeno — a idolatria do talentoso — que pode se transformar em mecanismo de asfixia. A pergunta que permanece aberta é institucional e íntima: como separar o papel do pai do do treinador, e como permitir que uma geração escreva sua própria história sem que a pesada sombra dos feitos não realizados pelos antepassados defina seu destino?
Ilia Malinin volta para a vida comum dos esportistas de alto nível: reabilitação técnica, gestão de imagem, reconstrução emocional. Mas a cena com o pai ficará — não como escândalo, mas como documento para pensar o esporte moderno: territórios de conquista que, por vezes, exigem antes de tudo o reconhecimento da humanidade por trás dos saltos.






















