Por Otávio Marchesini – Em uma leitura que ultrapassa o placar, Lazio–Atalanta terminou 0-2 e deixou em evidência temas estruturais tão relevantes quanto os gols: desgaste físico, decisões protocolares sobre o VAR, rotinas de cobrança de pênalti e a pequena coreografia das partes interessadas em torno do ponto branco.
O primeiro elemento a explicar a dinâmica do jogo foi o descanso desigual entre as equipes. A Lazio, acostumada a atuar apenas nos fins de semana por não ter compromisso europeu, vinha de uma partida na quarta-feira pela Copa da Itália em Bolonha. Já a Atalanta desfrutara de repouso mais longo na semana — enfrentou a Cremonese na segunda e depois teve dois dias de folga. Esse detalhe logístico traduz-se em minutos: os 30 iniciais pertenceram aos biancocelesti, mas, passada essa janela de superioridade relativa, a equipe caiu fisicamente e permitiu que a Atalanta recuperasse posse e gerisse o jogo.
No banco, a aflição do treinador se tornou cena pública. Palladino demonstrou impaciência com a falta de amplitude e os erros na circulação — gesto dramático e sintomático: tirou o casaco com irritação, gesto que pareceu mais do que desconforto térmico, mas expressão de uma frustração tática e emocional. Num campeonato em que a preparação e o plantel definem resistência, a imagem do técnico sem o casaco tornou-se metáfora de uma equipe que, por ora, não encontra o compasso.
Houve ainda uma pequena crônica de modernidade no gramado: o novo papel do “difendi-dischetto”. Antes da confirmação do pênalti por parte do árbitro Sacchi — após checagem do VAR sobre um braço largo de Cataldi num cruzamento de Zappacosta — o italo-polaco Zalewski posicionou-se no ponto de cobrança como quem guarda um altar, evitando que adversários transformassem a zolla em terreno irregular com buracos ou desníveis. É uma cena quase ritual: alguém tem de proteger o local, sinal de que o jogo contemporâneo incorpora táticas periféricas até na execução de uma penalidade.
Sobre a cobrança: coube a Ederson bater. Conhecido por cobranças discretas, optou novamente por um toque curto — o chamado “tiretto” — que, na prática, funciona como mistura de técnica e aposta psicológica. O chute por baixo enganou Provedel e resultou no 1-0; uma decisão que, segundo Palladino, já havia sido combinada durante a semana. Trata-se da busca por emoção controlada, uma pequena aspereza narrativa num jogo que, no fim, precisa ser resolvido com certezas.
Por fim, a cena pós-árbitro motivou debates: comentaristas criticaram o fato de o juiz ter explicado ao público um não-pênalti — procedimento que foge do protocolo habitual de comunicação do VAR. Do lado oposto, surgem os chamados “anti-tecnologia”, que insistem em minimizar o papel do recurso e se apresentam como alvo de ironia do noticiário: são muitos os que, sem argumento técnico consistente, transformam a tecnologia em bode expiatório. O episódio ilustra um fato maior: o futebol contemporâneo disputa não só o campo, mas também a autoridade do relato e da verificação.
Em suma, o 0-2 traduz menos um espetáculo isolado e mais uma fotografia das condicionantes do jogo moderno: calendário, rotinas de equipe, protocolos de arbitragem e microfunções táticas. Tudo isso fala sobre como clubes se organizam e sobre o que uma vitória representa — para além dos três pontos, uma reafirmação de estrutura.






















