Otávio Marchesini — A partida entre Inter e Juventus, além de seu impacto na tabela, deixou em evidência fragilidades institucionais que atravessam o futebol italiano. O árbitro Daniele La Penna, considerado responsável pelo erro clamoroso que resultou na expulsão indevida de Pierre Kalulu, deverá ficar afastado das funções por pelo menos um mês. Ao mesmo tempo, o jogador da Inter, Alessandro Bastoni, não será punido pela sua simulação, um desfecho que alimenta um debate mais amplo sobre comportamento e fiscalização.
Segundo a direção da arbitragem, La Penna estava em posição adequada, muito próximo à jogada, e tinha condições de identificar, no campo, a simulação de Bastoni. A falha em marcar corretamente — aplicando o segundo cartão amarelo a Kalulu em vez de sancionar a simulação — motivou a decisão de afastamento. O designador Gianluca Rocchi admitiu o erro publicamente: “Estamos muito desapontados pela decisão de La Penna, que é claramente errada, e pelo fato de não termos podido usar o VAR para corrigir a situação”.
Ao mesmo tempo, Rocchi ressaltou que a atitude do defensor nerazzurro configurou uma “simulação clara” e escreveu o episódio como parte de uma série de comportamentos antidesportivos que têm sucedido com frequência no campeonato. A contradição aparente — punir o árbitro por não ver algo que o próprio dirigente reconhece como mentira dentro de campo — expõe a complexidade de atribuir responsabilidades em uma partida onde erros humanos e lacunas do protocolo se entrelaçam.
Para La Penna, a suspensão prevista deverá ser de cerca de um mês. A punição não será mais longa porque a avaliação do seu desempenho no segundo tempo não foi inteiramente negativa: segundo os superiores, ele manteve a concentração após tomar consciência do erro no intervalo, especialmente após o tenso confronto com dirigentes da Juventus no túnel do estádio. Ainda assim, a medida simbólica pretende assinalar a gravidade do equívoco.
Do lado da Juventus, a reação foi dura. Jogadores e dirigentes apontaram críticas severas à gestão da arbitragem: “Há um grupo que não funciona. E há quem deve pôr a cara. Hoje (ontem) não estava nem mesmo no estádio”, bradou Giorgio Chiellini, em referência às falhas percebidas na coordenação e presença institucional. Rocchi, por sua vez, chegou a ter ameaças de renúncia quando sua integridade foi questionada, mas não há expectativa de uma demissão imediata durante a temporada.
O episódio reabre uma discussão já anunciada pela Federcalcio: a partir de 1º de julho, com o reinício pós-Mundial, o protocolo do VAR será ajustado para permitir a revisão de casos envolvendo a segunda advertência (segunda amarelo). Em teoria, essa alteração deveria impedir que situações como a de San Siro se repitam, ao menos do ponto de vista procedimental. Contudo, como bem aponta a sequência de fatos recentes, o problema não é apenas técnico; é também comportamental. Apelos à esportividade pouco têm alterado a frequência de simulações e condutas antidesportivas que contaminam o espetáculo.
Enquanto as atenções se voltam para as avaliações de junho — quando será feita uma análise completa da temporada e dos erros acumulados —, o caso La Penna-Bastoni-Kalulu permanece como síntese de uma crise de governança no futebol italiano: um nó entre julgamento humano, tecnologia e cultura de jogo que precisa ser desatado com medidas regulatórias e, sobretudo, com uma mudança de hábitos dentro do campo.
Otávio Marchesini — Repórter de Esportes, Espresso Italia






















