Há frases que atravessam o tempo como folhas secas levadas pelo vento; uma delas, «La libertà innanzi tutto e sopra tutto», lembra-nos que a verdade merece ser protegida com o mesmo cuidado que se dá a um jardim na Primavera. Neste texto reflito sobre o que aconteceu quando a narrativa pública se transformou numa trama densa, entrelaçando figuras reais, suspeitas, e alegações que chegaram a assumir o estatuto de histórias incontestáveis.
O nome Epstein continua a ressoar como um nó numa rede: homem condenado por crimes sexuais, cujo caso deixou cicatrizes e suscitou investigações, perguntas e indignação. Ao redor desse caso, floresceram outras narrativas — algumas fundadas em factos comprováveis, outras em conjecturas que ganharam fôlego nas sombras da internet. Entre elas, surgiram teorias que procuravam ligar o universo dos poderosos a eventos sanitários e políticas globais. É nesse terreno pantanoso que a desinformação encontrou terreno fértil.
Quando a palavra pandemia se tornou o refrão de um novo tempo, muitos tentaram dar sentido ao caos com explicações que prometiam atalhos fáceis: culpas definitivas, planos secretos, beneficência mascarada. Algumas dessas narrativas evocavam a ideia de uma manobra deliberada para redesenhar o mundo. Outras apontavam para erros, negligência e falhas institucionais. O perigo, contudo, não está nas perguntas — essenciais ao jornalismo e à cidadania — mas na tentativa de transformar suspeita em certeza sem provas robustas, substituindo investigação por rumor.
Sou observador da vida quotidiana italiana e dos ritmos que regulam o bem-estar: a cidade respira de manhã, as pessoas partilham cafés e conversas; a confiança é uma colheita que se perde rapidamente quando irrigada com mentiras. A experiência da pandemia ensinou-nos que, mais do que nunca, precisamos de rigor e humildade. É preciso distinguir entre o que foi mostrado por investigações credíveis — incluindo as irregularidades e as conexões que merecem escrutínio — e aquilo que circula como fantasia vingativa.
Os ecos das teorias têm consequências concretas: minam instituições, alimentam polarizações e, sobretudo, interferem na saúde pública. Quando a dúvida vira arma, a comunidade perde terreno para o medo. Cientistas, jornalistas e cidadãos têm de convergir num espaço comum feito de métodos, transparência e disposição para corrigir erros. Não existe autoridade infalível, assim como não existe acusação que se sustente sem provas. A busca da verdade é um trabalho coletivo e paciente, que prefere a luz branda do estudo ao brilho enganoso da manchete sensacionalista.
Neste cenário, a lição que nos sofistica é dupla: primeiro, proteger a dignidade das vítimas e exigir justiça com base em factos; segundo, cultivar uma resistência serena às seduções do complô fácil. A vida social é como um olival: demora anos a dar fruto, e uma poda mal feita compromete a colheita. O mesmo vale para o tecido social — cada mentira que deixamos crescer enfraquece as raízes do bem-estar comum.
Convido o leitor a olhar para os acontecimentos com o olhar da estação: perguntar, investigar, desconfiar das certezas prontas, mas também recusar a tentação de preencher lacunas com histórias que não se sustentam. É esta a postura que honra tanto a memória das vítimas reais quanto o compromisso com uma sociedade saudável.
Em resumo: o nome Epstein evoca crimes reais e questões que exigem respostas; a pandemia foi um teste à nossa capacidade de distinguir factos de fábulas; e a maior responsabilidade que temos agora é proteger a verdade com a paciência e o carinho de quem cultiva um jardim para as próximas estações.






















