Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes da Espresso Italia.
O empate por 1-1 com a Cavese, no estádio Lamberti, teve consequências que ultrapassam o placar. O confronto verbal entre o treinador Raffaele e o diretor desportivo Faggiano, no túnel dos vestiários, expôs ao público um quadro administrativo e técnico já rachado há semanas — um sintoma claro de que, na prática, o clube está operando em regime de “comissariado”.
Não se trata apenas de um episódio isolado após um dérbi nervoso: o contexto esportivo e institucional da Salernitana acumula sinais de desgaste crônico. A torcida não apenas lembra as duas consecutivas despromoções sofridas recentemente; ela vive a repetição de padrões — protestos, decisões contestadas (como a arbitragem de Ramondino em Palermo) e gols sofridos nos acréscimos (o tento de Minaj aos 90 minutos que selou o empate contra a Cavese) — que corroem confiança e credibilidade.
O que torna a situação insustentável é a evidência de que o proprietário, Iervolino, já vinha praticando um controle de facto sobre as escolhas técnicas e de mercado: segundo relatos consistentes, o dirigente foi “commissariando” Faggiano ao limitar-lhe intervenções na equipe e ao impor a contratação do atacante Lescano. Por sua vez, Faggiano confidenciou a torcedores, durante uma reunião informal que vazou publicamente, que havia colocado o próprio Raffaele em situação de ‘virtual esonero’ depois da derrota em Cerignola. O resultado é um tripé diretor-treinador-proprietário sem unidade mínima para governar um projeto esportivo.
Num clube com a história e as expectativas da torcida granata, é inadmissível manter esse nível de ambiguidade. Ou um dos dois elementos dirigentes técnicos se torna inoportunamente supérfluo — ou a propriedade age com decisão: demitir ambos seria a medida mais cristalina de responsabilização, e até mesmo com pedidos de ressarcimento moral por exibição desordenada em campo e fora dele, como ocorreu em Cava de’ Tirreni. Há, ainda, a alternativa das renúncias, caso reste algum resquício de dignidade profissional entre os envolvidos.
Do ponto de vista estritamente esportivo, o empate com a Cavese se soma ao empate caseiro contra o Giugliano, ao triunfo convincente sobre o Casarano e ao desastre em Cerignola: um mosaico de irregularidades que confirma uma tendência. A formação de Raffaele, repetida em 27 rodadas com poucas variações (a única alteração forçada foi a ausência do lesionado Carriero, substituído por um discreto De Boer), mostra incapacidade de transformar superioridade teórica de elenco em produto prático dentro de campo.
O problema não é apenas tático: é institucional. Manter uma direção e uma comissão técnica em permanente fricção equivale a aceitar que o clube seja administrado por contradições — algo que a cidade de Salerno e seus torcedores já não podem suportar. Se Iervolino quiser preservar algo além do património financeiro, terá de decidir com clareza: restaurar autoridade e rumo, ou permitir que a história recente se repita, sempre no mesmo molde de desilusão.
Enquanto isso, a praça granata continua em agitação, exigindo reparação moral e esportiva. A Salernitana precisa mais do que um paliativo; precisa de uma refundação mínima que comece por decisões corajosas no plano técnico e diretivo.






















