Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Na tarde que transformou as Tofane num palco de memória coletiva, Federica Brignone escreveu mais um capítulo da sua trajetória e da história do esqui alpino italiano. Com a frieza de quem conhece o terreno e a consciência do momento, ela ganhou a medalha de ouro no gigante feminino em Cortina, somando a quinta medalha olímpica da carreira e consolidando-se, aos 35 anos e 213 dias, como a mais velha campeã olímpica da disciplina.
O gesto das adversárias — a sueca Sara Hector e a norueguesa Thea Louise Stjernesund, entre outras — foi sintomático: correram para cumprimentá-la como se se tratasse de uma sacerdotisa do esquiar. Não foi apenas cerimônia. Foi reconhecimento público de uma atleta que, após dez meses de incertezas e dias de pressão intensa, resignificou o tempo e o lugar. A plateia respondeu com um urro que parecia dizer: estamos assistindo a algo maior que um resultado esportivo.
Antes da segunda descida, Brignone resumiu a operação com uma economia de palavras que revela método mais do que confiança vazia: ‘Só havia que ir em linha reta’. Três horas separaram as duas passagens, tempo suficiente para que os fantasmas se aproximassem, mas também para que a rotina técnica recalibrasse a adrenalina. ‘A neve estava fácil, o traçado nada de extraordinário; havia que atacar, ser limpa e inteligente nas mudanças de terreno’, explicou ela depois, numa síntese que mistura pragmatismo e experiência.
O cenário em Cortina foi mais do que um pano de fundo: tornou-se personagem. A arquibancada transformou-se num pequeno Maracanã da neve, bandeiras e trombetas compuseram uma festa coletiva que ampliou o significado do pódio. A alcunha — ‘Tigre’ — ganhou forma: os torcedores roncaram em uníssono e a atleta, firme no bloqueio da largada, respondeu com uma descida precisa, controlada pela placa protetora na perna e por uma gestão psicológica rara em momentos decisivos.
Do ponto de vista coletivo, o ouro de Brignone tem simbolismos que vão além do metal. Levou a Itália a vinte medalhas em um ápice de recuperação de prestígio olímpico, um número que remete aos picos de Lillehammer 1994, e em poucos minutos a contagem coletiva da delegação avançou ainda mais, qualificando a competição como um repositório de memórias para a nação. Não é só história pessoal; é história social do esporte italiano.
Como analista, observo o triunfo pensando nas estruturas que permitem longevidade competitiva: formação, gestão de lesões, inteligência de percurso e uma relação com o público que transforma atletas em símbolos. Brignone encarna essa ponte: é técnica e carrega narrativas. O gesto das rivais, a resposta da torcida e a performance em pista compõem um retrato em que o esporte se revela como prática de identidade e testemunho coletivo.
Ao encerrar a prova, restou a imagem de uma campeã que não fez espetáculo de si, mas que recebeu a devoção do circo branco com a calma de quem sabe que alguns feitos permanecem mais pelo que significam do que pelo brilho momentâneo. Para a Itália, para Cortina e para o esqui alpino, foi um dia em que a memória coletiva ganhou contornos novos: o ouro no gigante é, antes de tudo, um gesto de resistência e continuidade.





















