Com precisão no tiro e frieza competitiva, Lisa Vittozzi transformou Anterselva em um cenário de redenção. A atleta de Pieve di Cadore, que completou 30 anos no início de fevereiro, venceu a prova de perseguição de 10 km nos Jogos de Milano Cortina, conquistando a sua terceira medalha olímpica e assinando, acima de tudo, a confirmação de um percurso de recuperação que vinha se desenhando desde 2019.
No poligono, Vittozzi não deixou dúvidas: acertou todos os alvos (20/20) e apresentou um tempo de tiro extremamente rápido, construindo uma vantagem superior a 40 segundos que lhe permitiu gerir a prova até a vitória. Essa performance não é apenas um número — é o ponto final de um capítulo complicado da sua carreira.
Em 2019, após o Mundial de Östersund, onde chegou como líder da Copa do Mundo e numa condição de favorita em relação à colega Dorothea Wierer, Vittozzi descreveu uma fase de desorientação: “entrei em crise a nível pessoal e como atleta. Perdi a reta via, me senti perdida. Com o corpo estava presente, mas a forma mental não me permitia fechar as provas, não havia tranquilidade no tiro”. Aquela crise marcou uma pausa significativa — uma espécie de interregno de quatro anos — que reconfigurou sua relação com o esporte.
Desde 2023, porém, a trajetória voltou a subir: vitórias importantes, dois títulos mundiais, outros quatro pratas em campeonatos do mundo, o prata olímpico na equipe mista em Milano Cortina e ainda resultados expressivos na Copa do Mundo — além da decisão de resguardar-se, pulando toda a temporada de 2025 por precaução. O discurso da atleta também mudou: mais direto, ambicioso e sereno. “Não me escondo, estou aqui para ganhar a medalha de ouro”, afirmou a carabineira antes da cerimônia inaugural.
Curiosamente, o biathlon não foi uma vocação imediata. Vittozzi experimentou quase todas as modalidades de neve quando criança; o esporte de tiro surgiu quase como um ripiego, uma escolha que acabou se convertendo em identidade. Desde cedo, porém, gostava de brincar com pistolas de brinquedo — um detalhe anedótico que hoje compõe a narrativa pessoal de uma campeã.
Fora das pistas, a atleta busca ritmos que lhe devolvam equilíbrio: joga tênis, lê — é apaixonada por livros policiais e não raro os leva consigo em competições — e reserva parte do tempo a séries de TV. Esses hábitos ajudam a explicar a capacidade de concentração e regeneração mental que a permitiram, anos depois, reencontrar a forma máxima.
O triunfo em Anterselva tem, portanto, contornos que ultrapassam a mera vitória esportiva. É um enredo de resiliência e reinvenção: a memória de 2019, o trabalho contínuo e uma cabeça diferente que volta a traduzir talento em resultados. Para o biathlon italiano, e para a própria Vittozzi, trata-se de um momento simbólico — a confirmação de que trajetórias são tão feitas por recomeços quanto por conquistas.
Publicado em 2026-02-16






















