Por Otávio Marchesini — Em uma noite que diz muito sobre as dificuldades logísticas e físicas de uma temporada intensa, o Itas Trento arrancou uma vitória por 3-2 sobre o fanalino de roda Grottazzolina, em duelo que ganhou contornos de resistência coletiva e gestão de recursos. Desfalcado de Michieletto e sem Flavio — parado na última hora por lombalgia — o clube gialloblù viveu uma partida em que a leitura do calendário pesou tanto quanto a leitura do adversário.
O placar definitivo não traduz a natureza do jogo: um confronto em que o favoritismo foi testado por uma equipa menor, porém motivada pela necessidade e pela ausência de pressão positiva. O protagonismo individual recaiu sobre Ramon, melhor marcador da noite com 19 pontos, e sobre Lavia, que voltou a atuar diante da torcida e somou 16 pontos, com quatro bloqueios decisivos. Mais do que estatísticas, esses números dizem respeito a um timing competitivo — jogadores que tomaram para si o dever de resolver momentos críticos enquanto a equipa buscava um equilíbrio físico e mental.
A leitura do primeiro set espelha a sensação geral: Grottazzolina avançou cedo (1-4) aproveitando dificuldades na recepção de Trento, forçando o técnico Mendez a pedir tempo em 4-9. A entrada de Lavia no lugar de Bristot e o serviço de Sbertoli deram esperança de reação (13-14), mas os gialloblù voltaram a ceder terreno e perderam o parcial por 22-25. No segundo set, com Lavia mantido desde o início, Trento encontrou mais fluidez: os bloqueios de Garcia e de Lavia abriram espaço para um desempenho mais confortável, e o parcial terminou em 25-15 a favor dos anfitriões.
O terceiro set voltou a desnudar fragilidades ofensivas de Trento. Mesmo com a tentativa de alteração feita pelo treinador, incluindo a entrada de Faure, a sequência não foi suficiente para segurar o ímpeto visitante, que fechou em 23-25. A alternância de parciais — perda, vitória elástica, nova derrota — transformou a partida em um estudo sobre como administrar desgaste emocional e físico.
Nos sets decisivos, a equipa de Trento, apesar do rodízio e das ausências, mostrou capacidade de reerguer-se: a liderança coletiva reapareceu e, sobretudo no tie-break, a combinação entre a regularidade de Sbertoli na organização e a agressividade ofensiva de Ramon e Lavia decidiu a balança. A vitória por 3-2 não apaga a tensão do jogo, mas oferece dois pontos valiosos em um momento da temporada em que a gestão da forma e a preparação para compromissos maiores são imperativas.
O calendário que se abre agora explica parte do porquê das escolhas em quadra: domingo próximo há a superpartida fora de casa com Piacenza — confronto direto pela terceira posição — e, antes disso, a última partida do grupo de Champions League, quarta-feira no PalaTrento contra a líder Ziraat. Em poucas palavras, Trento não apenas venceu uma partida difícil; reafirmou a necessidade de planejar esforços, proteger atletas e modular ambição num contexto que exige sutileza estratégica tanto quanto competência técnica.
Na perspectiva histórica e sociológica, este triunfo lembra como as grandes formações sustentam sua identidade: não apenas pelas noites em que tudo funciona, mas pela capacidade de sobreviver às noites em que a firmeza coletiva substitui o brilho individual. Trento saiu vencedor — e com isso, mantém viva a narrativa de um clube que encara o calendário europeu como um teste permanente de profundidade e cultura desportiva.






















