Naquele rito cotidiano que parecia não ter fim, Albalisa Cietto saía de Odalengo Grande — aldeia discreta na província de Alessandria — e seguia até Volpiano, onde fica a sede da Sparco. Era um trajeto que repetiu desde 1993, com a regularidade e a disciplina próprias de quem trabalha com medidas e confiança. Em 30 de janeiro, depois de décadas de mãos e agulhas, ela se aposentou. Com sua saída se fecha um capítulo pouco visível, mas decisivo, da história recente da Fórmula 1.
Albalisa era, na prática e na precisão, uma artesã do vestir esportivo: uma sarta especializada em macacões (as tute) dos pilotos. Mediu, provou, ajustou e guardou centímetros de histórias — desde os kartódromos às boxes da elite do automobilismo, passando por ralis, testes secretos e noites de preparação antes das corridas. Encontramo-la no quartel-general da marca piemontesa, com um leve constrangimento: como se ainda fosse difícil aceitar que, desta vez, a entrevistada fosse ela mesma.
Nas mãos trazia seus cadernos — arquivos maniacalmente cuidados. «Cada página é uma tuta: cliente, número de ordem, modelo, medidas, alguns sinais a lápis», conta. Não há fofocas escritas, apenas uma disciplina documental quase suíça. «Eu fui a última a usar muito papel», ri Albalisa, reconhecendo a transição para sistemas digitais. Esses cadernos funcionam como memória material de uma época em que a Fórmula 1 também passava pelas mãos.
O percurso profissional de Albalisa não nasceu nos paddocks. Começou com motos, testando macacões; passou por serigrafia na Libben e pela confecção de sedilizios — da Maserati à Ferrari — e fez escola de modelagem por três anos. «Eu nem conhecia a Fórmula 1 quando entrei na Sparco. Chegavam pilotos que eu não conhecia. Me davam folhas com desenhos, às vezes feitos pelos próprios clientes, e a partir dali eu desenvolvia as tute», lembra.
A técnica e a tecnologia, desde então, avançaram rapidamente. Um fato concreto dessa evolução: o peso de uma tuta. «Antes pesavam 1,4 kg; hoje chegamos aos 800 gramas», explica. Os bordados cederam lugar aos transfers ignífugos; cada grama poupado conta na pista. Ainda assim, há algo imaterial que permaneceu: a relação entre o piloto e quem traduz o corpo em roupa — a confiança que permite ajustes íntimos, pedidos curiosos e confissões quase rituais.
As lembranças pessoais que ela conserva são pequenas pérolas de humanidade. Quem pediu um bolsinho adicional, discreto, para um santo de estimação ou para um punhado de sal? «Isso eu nunca direi», sorri, preservando o mistério. Recorda também episódios que misturam afeto e estranheza: um piloto gritou «ti amo» no calor de um momento — uma memória que ela repete com naturalidade — e, em outra ocasião, um campeão ficou em roupas íntimas durante provas de ajuste.
A aposentadoria de Albalisa não é apenas o fim da jornada de uma profissional exemplar; é o sinal tangível da passagem de um tempo em que o tecido, a medida e a mão eram elementos centrais de um processo que hoje se digitaliza e se industrializa. As tute continuam mais leves, técnicas e esteticamente minimalistas, mas perderam, em parte, o contato humano que Albalisa encarnou: a sensibilidade de quem conhece o corpo e a história de quem o veste.
Na Itália, onde a tradição manufatureira toca identidades e memórias regionais, a figura da sarta de automobilismo é um nó entre ofício e cultura. A saída de cena de Albalisa Cietto nos lembra que o esporte de alta performance é também patrimônio de mãos que ajustaram confidências e mediram sonhos à margem do espetáculo das pistas.
Fotos e arquivos: acervo Sparco; edição: Espresso Italia






















