Uma tarde dominical de clima quase primaveril transformou o centro de Milão em um palco de afeto coletivo pela equipe olímpica italiana. Entre o Castello Sforzesco e a Triennale, a reunião em torno do maxi‑telão da Casa Italia chegou a reunir cerca de dez mil visitantes — um aumento de quatro mil em relação ao sábado — em que a celebração das medalhas olímpicas coexistiu com o brilho da cidade e sua rotina reordenada pelo evento.
A montagem lembrava uma versão milanesa de Woodstock: escadarias tomadas por espectadores sentados, gente em pé esforçando-se para enxergar a transmissão, e a inevitável mistura de ansiedade e festa. A plateia seguia as descidas com olhos e coração voltados para Cortina: quando Sofia Goggia desceu e reclamou seis décimos, houve quem prendesse o fôlego; o chef Davide Oldani fez uma expressão que dava conta do descontentamento geral.
Minutos depois, às 14h27, veio a corrida que incendiou a praça: Federica Brignone liderava por cerca de um segundo na metade da descida. Foi nesse instante que a Casa Itália explodiu em cânticos e gritos. O presidente do CONI, Luciano Buonfiglio, vociferou «21!» com os dedos sinalizando as conquistas da delegação — que logo subiriam para 22 com o ouro de Lisa Vittozzi no biatlo. O improviso coletivo incluiu uma interpretação do Inno di Mameli, com ecos daquele histórico «Sì!» que, mesmo retraído por normas, permanece impresso na consciência nacional.
Mas a dimensão da afluência diz algo além das medalhas. A exposição montada na Triennale, concebida pela curadora Beatrice Bertini, oferecia ao público um percurso museográfico que situava os feitos recentes numa linhagem: desde as medalhas de Roma ’60 até peças como a tuta de Armin Zöggeler e um elemento da pista de Calgary ’88 autografado por Alberto Tomba. Objetos que, em sua materialidade, conectam gerações e reforçam a ideia do esporte como memória coletiva.
Rino Tommasi, cronista de antanho, teria marcado esse domingo com um círculo vermelho no calendário — não apenas por uma vitória isolada, mas pela intensidade do envolvimento público. Ao longo do eixo que une o Castello ao Duomo, porém, o diálogo foi também prosaico: onde almoçar sem que a fila consuma o horário do aperitivo? Como encontrar lembrancinhas e pins sem enfrentar longas esperas? Comércio informal e merchandising — legítimos sintomas de uma paixão em escala — floresciam nas calçadas.
O encontro em Casa Itália disse, sobretudo, que o esporte continua a ser um catalisador de identidade. Não era apenas a contagem de medalhas que movia a multidão, mas a necessidade de compartilhar um tempo público onde memória, orgulho e cotidiano se entrelaçam. Em Milão, naquele domingo, o espetáculo foi menos o pódio e mais o rito coletivo: torcer juntos, lembrar juntos, e, por um dia, sentir a cidade como extensão de uma nação que se reconhece no triunfo — e na sua história.





















