Em uma tarde de sol, caminhando do Duomo até o Verziere, o secretário de Estado canadense para o Esporte, Adam van Koeverden, fez um balanço conciso e ponderado sobre a recepção a Milano durante os dias de prova: uma cidade que combina qualidade de vida, atratividade histórica e funcionalidade logística. A avaliação do ex-atleta olímpico — vencedor de medalhas em K1 — foi clara: um A+ para a organização.
Van Koeverden, 44 anos, chega com uma dupla legitimidade. Não apenas representa um país com tradição olímpica — o Canadá já sediou três edições dos Jogos — mas traz na própria experiência a vivência do alto rendimento, com pódios olímpicos que o colocam em posição singular para avaliar instalações, pistas e bem-estar dos competidores. Em suas palavras, o que diferencia esta edição é a atenção quase artesanal à estética, alinhada à tradição italiana de valorizar o detalhe.
O cenário que emoldura as competições — com as Alpes e as Dolomitas ao fundo e a imponência do Duomo no centro — cria um quadro que, segundo van Koeverden, transforma a experiência em algo “verdadeiramente especial”. Mas a nota máxima que ele dá não é apenas poética: é pragmática. Ele destaca que as estruturas, inclusive as temporárias, são de alta qualidade e que o funcionamento prático da cidade facilita a vida dos atletas e delegações.
Entre as inovações apontadas pelo secretário, chamou atenção a solução de instalar uma pista de patinação de velocidade dentro de um centro de congressos — uma opção que ele definiu como “única” e sustentável, por evitar a construção de uma nova arena permanente. Os relatos dos próprios esportistas confirmam o diagnóstico: o gelo está ótimo e as sensações de velocidade são positivas.
Um detalhe de imagem pública não passou despercebido: atletas circulando pela cidade com naturalidade, inclusive usando o transporte coletivo. Um vídeo que mostra o jogador de hóquei canadense Tom Wilson no metrô tornou-se marco simbólico dessa informalidade. Para van Koeverden, isso expressa algo profundo sobre o evento: “O esporte é democrático e o transporte público também deve ser”. Ele recordou um ditado canadense — se o transporte público funciona, chega a ser usado até pelos CEOs — e viu nisso um termômetro da qualidade urbana.
Minha leitura, no entanto, busca ir além do elogio funcional. A ênfase na estética e na integração com a cidade é uma escolha cultural e política: transforma a Olimpíada em espetáculo cívico, não apenas em circuito técnico. Isso implica decisões que afetam memória coletiva, turismo e o perfil que Milão quer projetar internacionalmente. A sustentabilidade das soluções temporárias, o uso do espaço público e a capacidade de manter o cotidiano urbano durante o evento são elementos que dirão muito sobre o legado imediato.
Em suma, a impressão do representante canadense confirma duas linhas que me interessam como observador histórico do esporte: a Olimpíada como palco de identidade urbana e a logística como gesto democrático. Se os atletas atestam qualidade das instalações e a cidade convive bem com o evento — inclusive pela eficiência do metro —, temos aqui um exemplo de como uma grande competição pode conviver, sem rupturas, com a vida cotidiana.
Otávio Marchesini — Espresso Italia






















