Depois da expulsão de Kalulu em Inter-Juventus, Alessandro Bastoni tornou-se o centro de uma onda de críticas que ultrapassou os limites do esporte e atingiu a esfera pessoal. O defensor da Inter e da seleção teve de bloquear os comentários nas redes sociais — medida seguida também por sua esposa, Camilla Bresciani — quando as ofensas, inclusive ameaças de morte à mulher e à filha, atingiram níveis intoleráveis.
O jogador passou o dia de folga na casa da família, na província de Bergamo, tentando recuperar a rotina e a serenidade. A pausa concedida por Chivu serviu para isolá-lo do turbilhão público: ouvir as músicas de seu cantor preferido, retomar hábitos familiares e preparar-se para o retorno aos treinos em Appiano. A retomada da rotina será crucial, pois a semana seguinte é decisiva para a Inter — com o playoff de Champions contra o Bodø/Glimt (quarta-feira na Noruega e terça-feira 24 em San Siro) e a viagem a Lecce no meio do caminho.
A pressão sobre os nerazzurri permanece intensa. Bastoni, notoriamente um dos atletas que já falou sobre a carga de jogos — chegando a comentar que «também os jogadores fazem sacrifícios, não apenas os operários» — viu sua atitude passar por escrutínio ampliado. A eclosão neste sábado teve um componente emocional maior: a Inter não vencia, há 14 partidas, nenhuma entre Juve, Milan ou Napoli, e a tensão se traduziu em reações menos ponderadas dentro e fora do campo.
As palavras de Chivu, proferidas quase uma hora após o término de Inter-Juve, delinearam a postura da equipe: 1) não apontar um jogador-chave como bode expiatório — reconhecendo que o contato de Kalulu no braço de Bastoni foi «leve»; 2) lembrar que o futebol apresenta lances semelhantes há décadas — «Mas o futebol é isso há 100 anos», disse o treinador — e 3) pedir serenidade ao atleta, lembrando que episódios do tipo já ocorreram antes, inclusive envolvendo a própria Inter frente à Juventus.
O clube recordou também uma situação recente em que um toque de Bastoni contra o Liverpool provocou a queda de Wirtz e, nos acréscimos, um pênalti que complicou a trajetória europeia da Inter e a obrigou a passar pelo playoff. Esse histórico alimentou a narrativa midiática em torno do jogador e fez com que o episódio em San Siro tivesse repercussão internacional: o jornal francês L’Équipe ironizou chamando a jogada de Bastoni de uma «medalha de voo», expressão que ganhou difusão na imprensa europeia pelo peso do confronto.
Quem convive com Bastoni relata preocupação com a onda de violência verbal que o envolveu. Infelizmente, a exposição de figuras públicas — e atletas em particular — torna recorrente o episódio do exagero das quedas em campo e das reações desmedidas nas redes. A celebração de Bastoni pela expulsão do adversário, talvez o gesto mais criticado da noite em San Siro, contribuiu para inflamar ainda mais o caso, embora se trate de um comportamento incomum, não habitual, em termos de repercussão.
Para entender o fenômeno em perspectiva: episódios de simulação ou de festejos provocativos não são novidade na história do futebol. Mesmo exemplos respeitados no passado — como o gesto de Giorgio Chiellini em um dos seus últimos clássicos Juve-Inter, quando simulou uma falta para obter um cartão a Perišić e depois celebrou com um companheiro — demonstram que o jogo é palco de pequenas manipulações táticas e psicológicas, que assumem significados distintos segundo o contexto.
O caso Bastoni abre duas frentes de debate que extrapolam o lance isolado: a responsabilidade das instituições em proteger atletas e suas famílias contra ameaças reais, e a cultura digital que permite que o ódio se propague com velocidade. A Inter, ao insistir na necessidade de manter o jogador calmo e apoiado, tenta gerir o impacto esportivo e humano do episódio. Resta observar como a recuperação emocional do defensor influenciará seu desempenho nas semanas decisivas que se avizinham — e como a sociedade esportiva responderá ao desafio de separar crítica de violência.






















