Em um balanço que extrapola placas e estatísticas, a presença feminina está reconfigurando a paisagem das Olimpíadas para a Itália. De um total de 38 atletas medalhistas, 17 são mulheres — ou seja, 44,74% do conjunto. Mais do que números, trata-se de um fenômeno cultural: atletas que simbolizam trajetórias individuais e, ao mesmo tempo, reflexos de um movimento esportivo nacional em transformação.
O domingo que passou deixou marcas rosas e consistentes no quadro italiano. Federica Brignone confirmou um segundo ouro no gigante, provando que a recuperação de uma lesão grave — 318 dias atrás — não foi apenas retorno, mas reinvenção. No biatlo, Lisa Vittozzi escreveu uma página histórica: a primeira medalha de ouro do país na disciplina, em qualquer gênero. São gestos que reverberam além das pistas e dos estandes, porque traduzem resistência, estrutura e propósito.
Ao mesmo tempo, figuras cuja carreira já atravessou décadas mantêm-se centrais. A quase 39 anos, Arianna Fontana continua a caçar gelo com a fome do início e persegue um possível 14º pódio olímpico nos 1.000 metros — um feito que a colocaria à frente do recordista Mangiarotti (13 pódios). E Francesca Lollobrigida, ao dividir o protagonismo com o pequeno Tommi nas entrevistas, remete a discussões de política pública: maternidade, creches e o papel do Estado no apoio a atletas que também são mães.
Quando a televisão norueguesa perguntou ao presidente do CONI, Luciano Buonfiglio, qual o segredo do momento, ele podia escolher entre narrativas: a redenção de Brignone, a resiliência de Vittozzi no combate à depressão, a longevidade competitiva de Fontana, ou o impacto social da imagem de Lollobrigida. Não é um segredo único, mas uma constelação de trajetórias que, somadas, explicam o vigor do movimento.
O quadro comparativo com as grandes potências é igualmente revelador. A Noruega lidera o quadro com 12 ouros — quatro a mais que a Itália (8) — e soma 26 pódios contra 22 dos azzurri. Os noruegueses vencem em sete disciplinas; a Itália, em nove. A diferença aponta menos para fragilidade e mais para diversidade de rendimento: um país que pontua em vários frontes tem um tecido esportivo mais profundo.
Na mesma régua, os Estados Unidos ocupam o terceiro lugar no quadro e a China aparece deslocada nas retaguardas. A Europa continua pujante: a Holanda, senhora do gelo rápido; a Suécia, notável nas provas de fundo; a França, protagonizando disputas no biatlo; e a Alemanha, que somou três ouros no slittino — contra dois italianos.
Além das estrelas, surgem os exemplos que atestam continuidade e renovação: Chiara Betti e Elisa Confortola, com 64 anos somados, representam a força do short track com marcas impressas por Fontana; Andrea Vötter e Marion Oberhofer despontaram no slittino e, após o ouro em dupla, foram recebidos pelo presidente da República, que perguntou até sobre a origem dos seus sorrisos e os detalhes técnicos das suas bobinas. Pequenos gestos instituem memória coletiva.
Se há uma lição que fica é esta: as medalhas contam, mas contam mais quando se lêem como partes de histórias humanas e institucionais. A presença crescente das mulheres no pódio italiano nas Olimpíadas de Inverno é sinal de estruturas que avançam — treinamentos, coaching, políticas de base — e de relatos pessoais que se enredam com demandas sociais. Em um país onde o esporte dialoga com identidade regional e memória, cada vitória feminina reescreve, com delicadeza e firmeza, a narrativa nacional.
O desafio adiante é transformar esse momento em legado: consolidar centros de formação, ampliar o diálogo entre instituições e família, e garantir que histórias como as de Brignone, Vittozzi, Fontana e Lollobrigida não sejam exceções, mas regras de um sistema que reconhece e sustenta o talento feminino.






















