Lisa Vittozzi entrou no círculo da história do esporte italiano ao conquistar a primeira medalha de ouro olímpica no biatlo — feito inédito para a Itália, entre homens e mulheres. A vitória na prova de perseguição (pursuit) em Pequim desenhou-se como o retrato de uma atleta que soube transformar fragilidades em força: esqui discreto, disparos perfeitos e uma narrativa pessoal que atravessa gerações.
A corrida começou com um déficit de 40 segundos em relação à líder Maren Kirkeeide. No gelo do estádio, com 25 mil vozes aplaudindo e o campo técnico ao redor, Vittozzi adotou a clássica estratégia dos grandes atiradores: desligou o externo e entrou numa bolha. Quatro respirações profundas, cinco tiros com intervalos curtos e, quando os adversários vacilaram, ela cumpriu a sequência com frieza absoluta: vinte acertos em vinte disparos, distribuídos em quatro sessões, realizadas em cerca de um minuto e meio.
Se no plano das lâminas ela registrou apenas o 19º tempo entre as participantes, foi no polígono que consolidou a vantagem. Com as francesas e norueguesas perdendo-se em erros, Lisa deslanchou e teve pela frente apenas a contemplação do triunfo: um último giro de pista que já era celebração. A prova de perseguição, a mais dramática do biatlo pela alternância intensa entre esforço físico e precisão, ofereceu a moldura perfeita para uma campanha de resgate.
A trajetória de Vittozzi é marcada por extremos. Estreou na Copa do Mundo em 2015; foi bronze olímpico em 2018; tornou-se campeã mundial em 2023; e venceu a primeira Copa do Mundo geral em 2024. Mas também enfrentou abismos: os Jogos de Pequim 2022 foram um desastre pessoal, e parte de 2025 foi praticamente anulada por dores severas nas costas, que quase a levaram ao abandono da carreira. Ainda assim, manteve-se fiel ao ofício e à ambição.
No pódio, a campeã dedicou a vitória aos avós Sergio e Lea, figuras que assumiram o papel de pai ao ajudarem a criar a mãe Nadia, abandonada pelo marido quando Lisa era criança. Ambos foram vítimas da Covid e a emoção, inevitavelmente, veio à tona. Vittozzi também consignou agradecimento a Alex Inderst, técnico que a acompanhou no período mais complicado — uma presença que, por motivos de diretoria, chegou a ser barrada da delegação no último momento. Lisa disse que com Inderst existe uma “scommessa” (uma aposta) que envolve as próximas provas: a estafeta e a mass start.
Discreta quando o assunto foi a polêmica conhecida como “affare Passler”, Vittozzi limitou-se a declarar: “Non voglio saperne nulla” — postura que revela a prioridade pela performance e pela serenidade mental. Aos 31 anos, ela afirmou com franqueza ter sempre acreditado que um dia chegaria a campeã olímpica, e brincou sobre a urgência: em quatro anos, com os Jogos na França, teme estar “velha e cansada” demais.
Mais do que uma vitória pessoal, o ouro de Lisa Vittozzi amplia a narrativa do biatlo italiano, que cresce em popularidade e capacidade competitiva. É um sinal de maturidade esportiva: clubes, treinadores e histórias familiares se cruzam para produzir um momento coletivo que, por si só, reconta a relação da Itália moderna com suas tradições e suas transformações.
Em termos estritamente esportivos, resta à seleção italiana confirmar a qualidade demonstrada: a próxima etapa são as provas coletivas e a mass start, onde a precisão balística e a resistência física de Vittozzi prometem ainda capítulos importantes nesta temporada olímpica.






















