Edward Feldhake III, 73 anos, do Arizona, é uma figura que traduz uma faceta menos vista dos Jogos Olímpicos: a cultura material e a memória coletiva construída em torno de pequenos objetos. Com cerca de 8.500 pins olímpicos na coleção, ele trabalha atualmente como voluntário em Cortina e trouxe para o lounge da Fondazione Cortina, na manhã de 14 de fevereiro, 3.500 exemplares duplicados destinados à troca.
A trajetória de Feldhake começa em 1984, nos Jogos de Los Angeles, quando se encantou pelo hábito do pin-trade. Desde então não parou: acumulou experiências em 18 edições dos Jogos, entre Verão e Inverno, perdendo apenas Pequim 2022 por causa da pandemia. Parte dessa vivência passou por convites oficiais — em uma edição foi convidado formalmente — e por atividades de staff: em dois Jogos realizados nos Estados Unidos trabalhou na montagem do Villaggio Olimpico.
Antes de assumir o papel que hoje o define como um dos grandes narradores silenciosos dos Jogos, Feldhake foi atleta. “Quando era jovem fazia atletismo, corria os 5.000 e 10.000 metros”, conta. Lesões interromperam essa carreira e o aconselhamento médico o levou ao ciclismo; ele recorda ainda ter passado pelo universo da equipe olímpica americana, em diferentes funções. Essa passagem esportiva, somada ao papel de voluntário, explica por que sua relação com os Jogos é tanto afetiva quanto prática: ele vive o evento por dentro e o documenta por meio dos objetos que coleciona.
Entre as peças que ganharam valor além do material, Feldhake cita pins recebidos de atletas conhecidos: em Paris recebeu um pin de Stephen Curry e, em outro momento, um de Brittney Griner — cuja história pessoal, marcada pela detenção na Rússia, confere significado histórico e emocional ao objeto. Para ele, esses pins têm um peso simbólico que ultrapassa a estética: são pontos de encontro entre histórias individuais e narrativas globais do esporte.
O momento do intercâmbio em Cortina, organizado pela Fondazione Cortina, revelou outro aspecto importante dessa subcultura: a transmissão geracional. As crianças e os jovens se apresentavam com bolsos cheios de pins, ansiosos pelo pin-trade, transformando a troca num ritual quase obsessivo nestas semanas de Jogos. Feldhake, com sua bolsa repleta de peças para permuta, assumiu um papel quase mítico — uma espécie de “Papai Noel olímpico” — para os mais jovens.
Do ponto de vista social, a coleção de pins olímpicos de Feldhake funciona como um arquivo pessoal que espelha as transformações do próprio evento: mudanças de design, símbolos políticos, a presença crescente de marcas e as narrativas humanas que cada edição carrega. Voluntários como ele não só garantem o funcionamento logístico dos Jogos; também protegem e propagam memórias, repassando-as a uma nova geração de aficionados.
Registrando pequenas peças, ele documenta grandes histórias. E faz isso com a paciência de quem entende que, no esporte, os objetos valem menos pelo preço e mais pelo sentido que acumulam ao circular entre mãos, cidades e tempos.






















