Ao encerrar sua trajetória profissional, Albalisa Cietto deixa não apenas um armário de macacões e protótipos, mas um capítulo da história material da Fórmula 1. Nas fotografias que marcaram seu último dia de trabalho, a costureira surge cercada de colegas e lembranças: imagens com Fernando Alonso, Kimi Räikkönen, Jenson Button e Max Verstappen, além de um bozzetto da touca e do macacão de Verstappen. É uma aposentadoria que merece ser lida além do gesto privado — como símbolo de uma tradição artesanal que sustenta o espetáculo moderno do automobilismo.
O ofício invisível por trás dos capacetes
Trabalhar com vestuário técnico para corridas implica um nó complexo de estética, segurança e identidade. A figura da sarta da Fórmula 1 conjuga know-how têxtil com precisão milimétrica: costuras que não podem falhar, tecidos que respondem a normas de segurança e cortes que acompanham a ergonomia do piloto. A experiência de Albalisa Cietto é a materialização dessa confluência — um ofício discretamente central ao espetáculo das pistas.
As imagens do seu acervo — o último registro de um álbum profissional — são também um retrato de relações: pilotos que confiam o corpo às soluções que mãos como as suas modelam; equipes que dependem da repetição de um gesto artesanal para garantir performance e proteção. Quando vemos uma fotografia com Alonso, Raikkönen, Button ou Verstappen, não vemos apenas celebridades: vemos a rede que permite que a corrida exista.
Memória, regionalismo e ofício
No futebol e no automobilismo, a Itália é reconhecida pela herança de ateliês e oficinas que traduzem identidade local em produto global. O trabalho de Albalisa dialoga com essa tradição: traz na agulha a ideia de que o esporte, além de evento, é cultura material. A aposentadoria dela não é apenas o fim de uma carreira; é o momento em que uma memória técnica corre o risco de se dissipar se não for transmitida.
Importa destacar também a dimensão afetiva desse lugar de trabalho. Os bozzetti — esquemas e croquis que aparecem nas fotos — funcionam como cadernos de transmissão: instruções, experimentos, alternativas de corte. Eles são patrimônios práticos, quase tão valiosos quanto os troféus expostos nas sedes das equipes.
O que resta ao fim da jornada
Ao celebrar o encerramento da etapa ativa de Albalisa Cietto, é pertinente refletir sobre o futuro dessas competências. A industrialização progressiva, a terceirização e a especialização tecnológica podem empurrar para a marginalidade saberes como o dela, que articulam técnica, sensibilidade e memória. Guardar suas histórias, fotografias e bozzetti é, portanto, uma tarefa ética para clubes, museus e instituições do esporte.
Mais do que um adeus pessoal, a aposentadoria de Albalisa é um convite para reconhecermos a rede de profissionais que sustentam o espetáculo e para protegermos o acervo vivo do automobilismo — aqueles saberes que se costuram, palavra por palavra, ponto por ponto, na longa tradição italiana do fazer bem feito.
Foto: arquivo pessoal — Albalisa Cietto com colegas e pilotos em registros que encerram uma trajetória.






















