Os anos 2000 abriram um roteiro cheio de efeitos especiais e cortes abruptos: avanços tecnológicos impressionantes ao lado de falhas profundas na organização político-institucional do planeta. Hoje, mais do que nunca, a cena nos mostra a ruptura do mito da globalização: globalizamos a economia, mas não a política. O resultado é um palco onde a Europa parece hesitante, sem uma voz única capaz de moldar a governança global.
As tensões recentes — da agressão da Rússia à Ucrânia até a guerra no Médio Oriente, somadas a múltiplos focos de conflito — revelam fissuras que não podem mais ser mascaradas. Instituições outrora centrais, como a ONU, perdem protagonismo; fóruns como G7 e G20 se mostram frágeis; e a NATO ressentese de um claro descompasso estratégico com o afastamento parcial dos EUA. Neste cenário, as palavras de líderes como Mario Draghi ecoam como sugestões sensatas, porém frequentemente neutralizadas por velhas rivalidades nacionais e miopias políticas.
Há uma narrativa paralela e sombria: a tecnociência usada como instrumento bélico; corporações multinacionais que monopolizam patentes vitais; fome e a morte evitável de crianças em zonas de conflito; a analfabetização digital que cria novas camadas de exclusão; e a progressiva mercantilização da vida humana. Tudo isso compõe um contraste gritante entre progresso tecnológico e regressão democrática e social.
Dentro dessa crise, surge uma chamada ao reagrupamento do pensamento laico e republicano. O despertar dos laicos — das instituições civis, das universidades e de movimentos políticos cívicos — pode ser interpretado como uma tentativa de reescrever o roteiro: não se trata apenas de resistir aos populismos e aos fundamentalismos, mas de oferecer uma alternativa que reassuma a centralidade da dignidade humana e da deliberação pública racional.
Os chamados Republicanos Europeus colocam-se, neste momento, como protagonistas potenciais dessa virada, propondo um novo humanismo político. A proposta atravessa várias frentes interligadas: reforço da soberania europeia em setores estratégicos, regulação das multinacionais para que a ciência e as inovações sirvam ao bem comum, e um ambicioso plano de modernização das universidades para que pesquisem livremente e formem cidadãos críticos aptos a enfrentar a complexidade tecnológica do século XXI.
Essa agenda também exige coragem na política externa e na defesa: uma Europa que aprenda a falar com uma só voz, que invista em capacidades autônomas e que recupere uma ética de responsabilidade coletiva. A dimensão social não pode ser secundária: combater a desigualdade, promover educação digital universal e redesenhar políticas de emprego são medidas tão estratégicas quanto a cooperação militar.
Enquanto isso, a sociedade civil precisa reencontrar-se com o espírito laico que privilegia a esfera pública e a argumentação racional sobre as pulsões identitárias. É um convite a reescrever a imagem da política como um ofício sério — um roteiro coletivo onde a verdade factual, a ciência e o respeito pelos direitos humanos guiam as decisões.
Como crítica cultural, vejo essa proposta dos republicanos como um reframe necessário: não apenas um conjunto de reformas técnicas, mas um projeto simbólico que pretende recuperar o sentido da comunidade política. É um desafio que lembra as grandes narrativas do cinema europeu — um combo de introspecção e claro-escuro: é preciso iluminar as sombras para revelar um enredo renovado.
O futuro da Europa dependerá da capacidade de transformar esse despertar laico em políticas concretas e duradouras. Se a tecnologia nos deu novas ferramentas, cabe à política e à sociedade culturalmente informada escreverem o roteiro que garanta que essas ferramentas sirvam à vida, e não ao seu lucro imediato ou destruição.
Em resumo: a crise da globalização é também uma oportunidade. Cabe aos atores laicos, aos republicanos e a uma cidadania exigente transformar o choque de cena em um novo ato, onde o humanismo político volte a ser a câmera que enquadra o nosso tempo.






















