Por Stella Ferrari, economista sênior — Vanguard Europe
O relatório elaborado por Viktor Nossek, da área de Investment & Product Strategic Intelligence da Vanguard Europe, confirma uma aceleração significativa na distribuição de dividendos em 2025. Segundo o estudo, os dividendos pagos globalmente cresceram 5,3% em relação a 2024, atingindo o patamar recorde de US$ 2,3 trilhões. É o quinto recorde anual consecutivo, num momento em que a volatilidade geopolítica e a influência crescente da inteligência artificial impõem calibragens frequentes nas estratégias de alocação.
Após um terceiro trimestre decepcionante — quando os dividendos recuaram 0,2% devido a uma alteração na cadência de distribuição por parte de grandes bancos chineses — o quarto trimestre registrou uma recuperação robusta. Os pagamentos no último trimestre subiram 7,7% ano a ano, somando US$ 673 bilhões. Esse padrão de comportamento ilustra como choques temporários e mudanças operacionais podem afetar trimestralmente o fluxo de renda, mesmo quando o ciclo anual mantém sua tendência ascendente.
Nossek destaca que o quinto recorde consecutivo não é apenas um número: é um indicador de estabilidade relativa no mecanismo de geração de renda para investidores. Em termos práticos, empresas que adotaram políticas de distribuição consistentes entregaram uma fonte de retorno que, para investidores com estratégia de alto payout, se traduziu em mais de 30% de retorno adicional apenas pela via dos dividendos nos últimos cinco anos. Em uma analogia de engenharia financeira, os dividendos atuaram como um amortecedor — um freio fiscal suave — que ajudou a reduzir a oscilação do portfólio.
Os mercados desenvolvidos tiveram papel central nesse desempenho: contribuiram com US$ 94 bilhões do total de US$ 113 bilhões de crescimento anual dos pagamentos. Isso equivale a 83% da expansão observada. A divisão regional revela pontos de aceleração claros: a Europa (excluindo Reino Unido) registrou crescimento de 10% ano a ano, enquanto o Japão cresceu 11%. O Nordeste da América (América do Norte) avançou 5% e a região do Pacífico aumentou 4%.
Setorialmente, a contribuição para o recorde foi concentrada em segmentos tradicionais e em rápido desenvolvimento. O setor financeiro distribuiu US$ 75 bilhões (+14% em relação ao ano anterior), o setor industrial aportou US$ 29 bilhões (+13%) e o setor de tecnologia elevou sua relevância com um aumento de 15%, confirmando que a tecnologia vem se consolidando também como fonte de renda para estratégias orientadas a dividendos.
A China desempenhou um duplo efeito em 2025: por um lado, foi responsável por volatilidade na distribuição ao ajustar calendários e cadências de pagamento — o que impactou o terceiro trimestre negativamente — e, por outro, impulsionou volumes em trimestres específicos, contribuindo para a variabilidade observada ao longo do ano. Em contrapartida, os países em desenvolvimento, de modo geral, mostraram um ritmo de crescimento mais contido, reduzindo o ímpeto coletivo desses mercados na composição do total global.
Para investidores institucionais e privados, a mensagem de Nossek é clara: num ambiente macroeconômico sujeito a incertezas, uma carteira com exposição calibrada a ações pagadoras de dividendos oferece uma fonte resiliente de retorno. Em termos estratégicos, a alocação em empresas com histórico de distribuição estabiliza o fluxo de caixa do portfólio — é como afinar o motor da economia do seu portfólio para rodar com mais torque e menos vibração.
Conclusão: 2025 foi um ano de confirmação da capacidade das empresas maduras de transformar lucro em retorno direto ao acionista. O fenômeno dos cinco recordes consecutivos sublinha que, apesar das mudanças estruturais e da volatilidade pontual, o mecanismo de distribuição de dividendos permanece um componente essencial da arquitetura de retornos globais.





















