Donald Trump anunciou que a primeira reunião formal do Board of Peace — organismo internacional por ele idealizado para gerir a reconstrução de Gaza — será realizada em Washington na quinta‑feira, 19 de fevereiro. Em mensagem publicada no Truth Social, o presidente afirmou que o novo órgão já mobilizou mais de US$ 5 bilhões para a recuperação da Faixa e qualificou o projeto como destinado a tornar‑se “o mais influente da história”.
O encontro está previsto para ocorrer no Donald J. Trump Institute of Peace e reunirá delegações de mais de vinte países, incluindo chefes de Estado e representantes governamentais. Segundo o anúncio oficial, os Estados membros teriam prometido recursos financeiros e o envio de milhares de agentes para compor uma Força Internacional de Estabilização e unidades de polícia local, com o objetivo declarado de garantir segurança, ordem pública e a implementação de um cessar‑fogo duradouro.
Ao mesmo tempo, o presidente fez um apelo explícito ao desarmamento de Hamas, exigindo que a organização seja desmilitarizada “o mais rápido possível” como condição para o progresso do plano. A ênfase de Washington na segurança e no controle do terreno revela um cálculo estratégico: assegurar a estabilização antes de transferir responsabilidades administrativas, em um movimento que remete a um lance decisivo num tabuleiro diplomático.
Entretanto, a formação e a governança do Board of Peace têm provocado críticas severas. Diversas ONGs internacionais e a Autoridade Nacional Palestina (ANP) ressaltaram que, embora o organismo se proponha a dirigir a reconstrução e a gestão governamental de Gaza, não há representantes palestinos em sua composição. A ANP denunciou o que chama de uma “reconstrução sem palestinos”, sublinhando o risco de marginalização política de quem habita a Faixa e a erosão dos alicerces da soberania local.
Reportagens de bastidores identificaram os sete membros fundadores do Board — entre eles figuras como Tony Blair, Marco Rubio, Jared Kushner, Steve Witkoff, Marc Rowan, Robert Gabriel e Ajay Banga — apontando a predominância de atores alinhados com visões pró‑Israel e com significante experiência financeira e de governança tecnocrática. Essa composição alimenta reflexões sobre um desenho institucional orientado por capital privado e por uma administração imposta, capaz de redesenhar fronteiras invisíveis de autoridade sobre Gaza.
Analiticamente, trata‑se de um movimento que combina diplomacia pública com arquitetura de poder: a promessa de mais de US$ 5 bilhões atua como isca para consolidar influência, enquanto a ausência de interlocução palestina cria fraturas potencialmente duradouras. A iniciativa busca impor um novo eixo de influência — com coordenação essencialmente liderada por Washington e aliados — e traduz, na prática, uma tectônica de poder onde legitimidade e eficácia poderão divergir.
Fontes informais também mencionam a criação de uma Gaza Stabilization Force, comandada por figuras próximas ao Board, e a intenção de implantar um aparelho de segurança que supervisionaria a reconstrução. Essas medidas reforçam a percepção de que a reconstrução será acompanhada de um forte componente de controle externo, o que suscita questionamentos legais e políticos sobre soberania, representação e o futuro governamental da Faixa.
Num cenário tão fracturado, a primeira reunião em Washington será um teste: conseguirá o Board of Peace converter promessas financeiras em uma arquitetura inclusiva que envolva atores palestinos, ou continuará a operar como um ente de influência externa, com risco de aprofundar tensões? A resposta a essa pergunta definirá não apenas a eficácia humanitária imediata, mas o desenho estratégico da ordem regional nas próximas fases.
Marco Severini — Espresso Italia. Análise geopolítica com ênfase em estabilidade e estruturas de poder.






















