O mais recente episódio protagonizado por Donald Trump expõe, com crueza, a disposição do ex-presidente americano em intervir nos assuntos internos de Estados soberanos. Desta vez o foco recai sobre Israel, aliado histórico dos Estados Unidos, onde Trump exigiu publicamente que o presidente Isaac Herzog conceda o perdão ao primeiro‑ministro em exercício, Benjamin Netanyahu, submetido a julgamento desde 2020 por acusações de corrupção, fraude e abuso de confiança.
Em termos diplomáticos, a mensagem de Trump — que qualificou Herzog como “disgraceful” por ainda não ter intercedido — é uma jogada de pressão direta: pediu inclusive que os próprios israelenses pressionem seu chefe de Estado. Trata‑se de uma intromissão de rara ferrenha visibilidade, que flerta com o insulto institucional quando dirigida a um parceiro estratégico.
O caso tem raízes recentes mas crescente afinação retórica. No discurso à Knesset em 13 de outubro, Trump já havia solicitado publicamente a intervenção de Herzog, e posteriormente formalizou o apelo numa carta em que descreve o processo contra Netanyahu como “político e injusto” — narrativa que ecoa a linha defensiva do próprio primeiro‑ministro e de seus aliados próximos.
As acusações contra Netanyahu não podem ser minimizadas: apontam para supostos favores a magnatas da mídia em troca de cobertura benevolente e recebimento de presentes e vantagens de um produtor hollywoodiano bilionário, em troca de benefícios de natureza pessoal e comercial. É histórico o fato de que Netanyahu é o primeiro premier em exercício de Israel a enfrentar um processo criminal por corrupção.
A resposta de Herzog foi medida e institucional. O Gabinete presidencial reiterou que o presidente não pode se pronunciar enquanto o Ministério da Justiça não emitir o parecer jurídico exigido pela legislação — um lembrete protocolar do princípio de que Israel é “um Estado soberano regido pelo Estado de Direito”. Em termos práticos, a declaração sublinha que Jerusalém não é uma sucursal de Washington e que o jogo procedural interno deve correr conforme as regras locais.
O aspecto jurídico é crucial: a legislação israelense determina que um pedido de perdão deve ser apresentado pelo próprio interessado ou por um parente direto. Netanyahu apresentou formalmente o pedido de graça no final de novembro, mas isso não autoriza um líder estrangeiro a ditar prazos ou procedimentos. Aqui reside o paradoxo: Trump almeja uma dinâmica semelhante àquela que praticou nos Estados Unidos, em que o uso discreto do perdão presidencial favoreceu aliados; em Israel, entretanto, a prerrogativa presidencial tem uma história mais limitada e circunscrita.
Um precedente remoto ilustra essa singularidade: o poder de perdão foi acionado apenas uma vez de modo notório na história israelense, no caso conhecido como Kav 300, em 1984, envolvendo ações do Shin Bet após o sequestro de um ônibus. É um precedente que demonstra quão raros e delicados são os alicerces legais dessa competência.
No tabuleiro geopolítico, esta disputa é mais do que um episódio judicial: representa um movimento decisivo na tectônica de poder entre Washington e Jerusalém. Ao pedir o perdão de Netanyahu, Trump tenta redesenhar fronteiras invisíveis da influência, testando os limites da soberania aliada. A resposta de Herzog, pautada pela prudência institucional, sinaliza a atenção aos procedimentos e à preservação do Estado de Direito — pilares essenciais para a estabilidade das relações e para a legitimidade democrática interna.
Figuras da oposição, como Yair Lapid, lembraram que as condições legais e o interesse público são pré‑requisitos para qualquer conceder de graça, apontando para o equilíbrio entre política e justiça que o episódio exige. Em termos estratégicos, observadores deveriam notar que cada movimento nesta partida terá efeitos duradouros sobre as alianças, sobre a credibilidade das instituições e sobre o comportamento futuro de atores que veem no perdão uma moeda política.
Em suma, a tentativa de influenciar o processo interno israelense é um lance que reverbera além das manchetes: testa instituições, questiona precedentes e redesenha, silenciosamente, as linhas de influência entre potências.






















