Em um movimento que redesenha, peça a peça, o mapa político da região, Israel anunciou a inscrição, pela primeira vez desde 1967, de partes da Cisjordânia como «propriedade estatal». A medida terá aplicação principalmente na Área C — correspondente a cerca de 60% do território — onde Tel Aviv exerce controle militar e civil efetivo. Trata-se de um passo administrativo com impactos estratégicos que ultrapassam a simples gestão fundiária.
O projeto de registro será operacionalizado pela autoridade israelense responsável pelo cadastro de terras, que recebeu recursos adicionais e reforço de pessoal para implementar as novas diretivas. Segundo comunicados oficiais, a iniciativa visa criar «certeza jurídica» e proteger os interesses do Estado. No entanto, no plano diplomático e geopolítico, o gesto é interpretado como uma aceleração do processo de anexação e um fortalecimento institucional dos assentamentos existentes.
O pacote legal e administrativo aprovado em Tel Aviv nas últimas semanas inclui, além do registro estatal, disposições que facilitam a compra de terras por cidadãos judeus na Cisjordânia, ampliam competências israelenses sobre sítios religiosos e estendem a aplicação direta de normas ambientais e de recursos hídricos em áreas formalmente sob administração da ANP. Estes elementos combinados alteram o equilíbrio de fato sobre o terreno: a valoração política desloca-se no sentido de uma consolidação permanente do controle.
Washington e capitais europeias acompanharão com atenção. A Autoridade Palestina (ANP) denunciou a iniciativa como «uma grave escalada» e o presidente Abu Mazen classificou as decisões como ilegais. No nível interno israelense, o movimento carrega a marca dos ministros mais beligerantes do governo, que defenderam a adoção de instrumentos administrativos e jurídicos para ancorar direitos estatais sobre áreas estratégicas — notadamente a vale do Jordão, o deserto da Judeia e os recursos naturais adjacentes.
Não se trata apenas de uma disputa por terra. É uma manobra de Estado que visa consolidar infraestrutura, rotas e redes energéticas que hoje circundam e, em muitos casos, servem os assentamentos. Ao transformar títulos e registos, Tel Aviv busca solidificar perante tribunais e mercados uma nova realidade de soberania prática, mesmo sem proclamar uma anexação formal por meio de lei internacionalmente reconhecida.
Nas análises de fundo, o episódio não pode ser dissociado das narrativas históricas mais amplas: cita-se com frequência — em tom de advertência — o projeto ideológico conhecido como “Greater Israel”, de raízes históricas e simbólicas que remontam a correntes do pensamento sionista. O uso contemporâneo dessa etiqueta serve, sobretudo, como lente para avaliar a amplitude das ambições territoriais que setores do espectro político israelense continuam a alimentar.
Do ponto de vista estratégico, a operação administrativa equivale a um movimento decisivo no tabuleiro: solidifica posições, cria obstáculos práticos a reversões futuras e redesenha fronteiras invisíveis à cartografia diplomática. Para a estabilidade regional, os alicerces desta diplomacia de atos — e não apenas de discursos — tornam-se fragilmente mais rígidos, exigindo respostas calibradas das partes e da comunidade internacional.
Conclusão: a inscrição de terras da Cisjordânia como propriedade estatal é, ao mesmo tempo, um ato técnico e um gesto geopolítico. Seu efeito prático pode ser lento, mas cumulativo; seu valor simbólico, imediato. Em um tabuleiro de influências e tutelas, cada registro é um avanço na primavera da tectônica de poder que define o futuro da região.






















