Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
No dia seguinte ao triunfo no gigante sobre a pista Olympia delle Tofane, Federica Brignone mostrou o contraste entre glória esportiva e dor persistente. Com o peito marcado por dois ouros nos Jogos de Milano-Cortina, a campeã italiana falou em conferência de imprensa e em entrevista a La Repubblica sobre a ferida que permanece: uma lesão grave que comprometeu a sua perna e o joelho e transformou o cotidiano em um trabalho de recuperação.
“Mi sono rovinata completamente la gamba e il ginocchio, e ogni giorno è una lotta”, disse Brignone, revelando que a tíbia ficou desalinhada e que sua fratura foi múltipla. Foram meses em que nem sequer conseguia dobrar a perna; até hoje existe a incerteza sobre retornar a atividades como o tênis. Diante desse quadro, a esquiadora não titubeou: trocaria as medalhas pela vida anterior ao infortúnio.
O relato contém não só um desabafo pessoal, mas também uma reflexão sobre a natureza do esporte de alto rendimento. Brignone lembrou que o esqui é palco de uma meritocracia concreta — “o cronômetro não é influenciável” — e defendeu a existência de uma rivalidade saudável, marcada por respeito mútuo. “Se erras na curva, podes passar 10 meses em reabilitação. Quando alcanças um resultado, os outros ficam admirados”, afirmou, sublinhando a dureza e a autenticidade das competições alpinas.
O episódio da prova também ficou gravado em sua memória. Em pista, disse, viveu um estado de alerta extremo, quase como um confronto com o próprio medo. Depois de cruzar a linha, ouviu o estrondo da torcida: o boato que confirmava o feito. Ainda assim, relativizou a dimensão técnica da corrida: não considera o gigante a sua melhor prova. O que predominou, explicou, foi o desejo de estar presente, de erguer a bandeira em Olimpíadas em casa — um gesto carregado de significado cívico e afetivo.
Profissionalmente, a vitória acrescenta mais um capítulo à trajetória já rica de troféus e pódios de Brignone. Humanamente, revela a tensão entre conquista e sacrifício. Ela afirmou que veio para se divertir e agradecer a oportunidade de competir diante do país — um movimento que, para além do resultado, requalifica o sentido da performance esportiva como experiência coletiva.
Protagonista também de comentários sobre igualdade de gênero no esqui, Brignone disse sentir respeito do universo masculino da modalidade e minimizou a ideia de discriminação pessoal, reconhecendo, porém, uma menor presença de treinadoras por razões que, segundo ela, demandam explicação objetiva.
Em termos práticos, a campeã anunciou que agora dedicará energia à reabilitação, com a ambição de retomar outras práticas esportivas que ama. O gesto de abrir mão de medalhas em troca da vida anterior é sintomático: recorda-nos que, por trás do aparato olímpico, existe um corpo que sofre, se reinventa e impõe limites ao mito do despojamento absoluto.
Como analista, enxergo na declaração de Federica Brignone um momento de fratura simbólica que atravessa o esporte italiano contemporâneo — entre heroísmo, vulnerabilidade e a necessária reflexão sobre os custos humanos da alta performance. Não se trata apenas de celebrar o pódio; trata-se de compreender o que ele exige.
Espresso Italia — Otávio Marchesini






















