Roberto Saviano entrou no debate que sacode o campeonato italiano e lançou, com linguagem direta e fundamentada, uma acusação que ultrapassa o episódio isolado. Em um longo post, o escritor ligou o chamado caso Bastoni a uma anomalia estrutural no futebol nacional, afirmando que a Serie A corre o risco de ser vista como falsada enquanto certos atores e dinâmicas permanecerem intocáveis.
O episódio em questão — a simulação atribuída ao zagueiro Alessandro Bastoni, que resultou na expulsão do juventino Kalulu e na consequente vitória do Inter por 3-2 — ganhou nova leitura nas mãos de Saviano. Para o autor, não se trata apenas de uma falta de arbitragem ou de um lance isolado, mas de um sintoma: “Finché quest’uomo avrà un ruolo nel calcio italiano tutti avranno la sensazione che i campionati siano falsati”. A declaração veio acompanhada da publicação de uma foto de Giuseppe Marotta, presidente executivo do Inter, convertendo o episódio numa crítica institucional.
Saviano foi claro: mesmo que o Inter conquiste o scudetto, essa vitória, segundo ele, seria afetada por uma sombra que decorre de relações e atitudes que excedem o campo. “Il campionato italiano oggi è falsato e pure se dovesse vincerlo l’Inter non avrebbe alcun valore”, escreveu, explicitando uma visão segundo a qual o resultado esportivo perde legitimidade quando a integridade das condições é posta em dúvida.
Nesse diagnóstico, o escritor não poupou a dimensão mais grave: as investigações sobre infiltrações da N’drangheta nas torcidas organizadas e a relação com setores do clube. Saviano cita um trecho de um provvedimento giudiziario que fala de uma “situazione di sudditanza” da sociedade interista perante representantes da Curva Nord, um ponto que desloca a discussão do nível esportivo para o institucional e jurídico. “Qui non si parla di Inter contro altri. Il problema non è il calcio, il calcio è la manifestazione del problema”, sublinhou.
O post também recorreu a episódios recentes que ilustram a tensão das arquibancadas: o arremesso de um artefato que atordou o goleiro Audero e a atmosfera agitada nas curvas nerazzurre, fatores que, na leitura de Saviano, são consequências de um sistema que preferiu a prudência seletiva ao enfrentamento claro.
Como analista, é preciso separar as camadas do problema. Há a ocorrência disciplinar e a intervenção do árbitro num lance específico; há a narrativa pública construída por clubes, dirigentes e mídia; e há, finalmente, o substrato institucional — decisões judiciais, investigações sobre criminosidade organizada e eventuais vínculos com a paixão torcida-clube. A acusação de que um campeonato possa ser percebido como falsado só se sustenta se esses elementos encontrarem confirmação documental ou processual.
Saviano não busca vilanizar torcedores ou atletas: ele aponta para o sistema. E todo sistema, por definição, exige respostas também institucionais — não apenas mea-culpas públicas ou notas oficiais. No país em que o futebol é espelho cultural, a exigência é simples e rigorosa: transparência e verificação.
Enquanto não houver respostas claras e processos que deem conta das sombras apontadas, cada título carregará, na opinião do escritor e de parcela da opinião pública, um peso que transcende o mérito esportivo. É essa fratura entre espetáculo e integridade que permanece o desafio para o futebol italiano.






















