Em conexão ao vivo com Domenica In, Carlo Conti voltou a se manifestar sobre a desistência de Andrea Pucci de subir ao palco do Festival di Sanremo em 2026. Com a voz de quem acompanha os bastidores da cena cultural italiana há décadas, Conti disse não ter previsto que a decisão geraria um «assunto de Estado» e declarou sentir-se especialmente solidário com o comediante no plano humano e profissional.
Ao responder à pergunta de Mara Venier, o diretor artístico reafirmou a autonomia de sua escolha: «Prefiro que digam que eu não sei fazer o meu ofício a que eu seja obrigado a fazer algo no mundo do espetáculo». A frase, simples e direta, é também um reflexo do papel que um curador artístico exerce entre responsabilidade criativa e sensibilidade pública.
Conti não poupou lembranças do histórico vínculo profissional com Pucci: “Na Arena de Verona entregamos o Biglietto d’oro pelos ingressos vendidos no teatro, ele foi sempre presença em Zelig e também esteve em Tale e Quale”. Esses marcos funcionam como chaves de memória, sinais concretos de uma carreira que não cabe ser reduzida a um episódio isolado.
Sobre os motivos do recuo, Conti puxou uma linha direta com um evento traumático para comediantes naquele palco: falou do precedente de Maurizio Crozza, «agredido» e vaiado em uma apresentação anterior, que deixou marcas na percepção do que significa performar em Sanremo. Segundo o diretor artístico, há um medo real — e legítimo — para um artista que encara a plateia e o risco do julgamento público: «Aos anos dele, preferiu evitar o risco e ficar em casa. É uma escolha totalmente pessoal».
Como analista cultural, penso que o episódio ilumina um entrechoque maior: o festival, enquanto espelho do nosso tempo, não é apenas vitrine de talento, mas também um palco onde se alinham memória coletiva, expectativa midiática e uma moderada brutalidade do público. A retirada de Andrea Pucci reabriu um debate sobre proteção artística e a responsabilidade organizacional — e, ao mesmo tempo, sobre a maneira como a plateia transforma cada aparição em um pequeno teste de consenso social.
Conti finalizou com um tom de pesar pelo impacto na vida do comediante, ao mesmo tempo em que reafirmou sua posição de direção artística, preferindo o risco de críticas pessoais a uma coerção profissional. É um momento que convoca uma reflexão: qual o preço da exposição em uma era em que cada performance é rapidamente traduzida em notícia e polarização?
Ao olhar para esse episódio, vemos o Festival como um roteiro em constante reescrita — um cenário de transformação onde escolhas individuais reverberam para além do palco. Resta acompanhar se essa retirada será um ponto isolado ou o início de um reframe mais amplo sobre como tratamos a comédia, o risco e a memória pública dentro dos grandes palcos.






















