Faleceu em Roma, aos 88 anos, o ator e dublador Pino Colizzi, nascido em 12 de novembro de 1937. Figura de presença discreta, porém essencial no cenário do entretenimento italiano, Colizzi deixa um legado que atravessa palco, cinema, televisão e — talvez sobretudo — a memória sonora do público: sua voz tornou-se um espelho que refletiu personagens maiores que o próprio tempo.
Formado pela Accademia Nazionale d’Arte Drammatica “Silvio d’Amico”, onde foi aluno de Orazio Costa, Colizzi estreou no teatro em 1960 quando Luchino Visconti o escalou para Uma Janela para o Mar (Uno sguardo dal ponte), ao lado de Paolo Stoppa e Rina Morelli. No mesmo ano, ganhou as telas da televisão como protagonista do sceneggiato Rai Tom Jones, inaugurando uma carreira que se desdobrou com naturalidade entre os palcos e as câmeras.
Como intérprete cênico, trabalhou com mestres como Franco Zeffirelli e Giuseppe Patroni Griffi, transitando por Shakespeare e Pirandello em montagens como Giulietta e Romeo e Così è (se vi pare), onde sua atuação se distinguiu pela modulação contida e pela profundidade. No cinema, colaborou com realizadores como Mauro Bolognini, em Metello (1970), consolidando uma presença segura e refinada.
Televisivamente, 1974 marcou um ponto alto com o papel do conde Vronskij na versão televisiva de Anna Karenina, dirigida por Sandro Bolchi e ao lado de Lea Massari. Participações em séries icônicas, incluindo La piovra, mantiveram Colizzi como um rosto conhecido do público italiano por décadas.
Porém, é no universo do dublagem que seu eco cultural se tornou imensurável. A voz de Pino Colizzi foi a tradução emocional de rostos e mitologias do cinema mundial para os espectadores italianos: foi a voz de Christopher Reeve nos primeiros três filmes do Superman, do jovem Vito Corleone de Robert De Niro em O Poderoso Chefão – Parte II, do angustiado Martin Sheen em Apocalypse Now, e também emprestou timbres ao charme de Michael Douglas, à intensidade de Jack Nicholson, à fisicalidade de James Caan, ao romantismo de Omar Sharif e à emoção de Richard Dreyfuss.
O trabalho com Zeffirelli alcançou uma síntese exemplar em Jesús de Nazareth, onde Colizzi não só atuou como o bom ladrão, mas também dobrou a voz de Robert Powell como Cristo, imprimindo à minissérie uma tonalidade solene que dialogou com o imaginário religioso e televisivo da época. Em 1973, sua interpretação vocal de Robin Hood no clássico animado da Disney entrou para a memória afetiva de crianças e adultos — um exemplo de como a dublagem age como um roteiro oculto que acompanha gerações.
A trajetória de Colizzi revela a dublagem como uma arte interpretativa em si, um trabalho de tradução emocional que envolve semiótica, narrativa e afinidade com o rosto que se vê. Sua voz tornou-se, para muitos, a voz original de personagens que, em outro contexto, teriam outro timbre: prova de que o cinema dublado é também um patamar de construção identitária cultural.
Parteira de personagens e guardião de timbres, Pino Colizzi deixa um legado que atrai à reflexão sobre memória, autoria e o modo como o entretenimento opera como cenário de transformação social. Em meio ao luto, resta a coleção de vozes que ele criou — um verdadeiro arquivo sonoro do nosso tempo.






















