Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O atacante Gift Orban foi expulso aos 10 minutos do primeiro tempo na partida entre Hellas Verona e Parma, realizada neste domingo. O árbitro Daniele Pairetto aplicou o cartão vermelho por protestos — decisão que levou o jogador nigeriano a deixar o gramado precocemente e que contribuiu para a derrota dos scaligeri por 2 a 1.
Logo após o episódio, surgiu nas redes sociais uma mensagem atribuída a um perfil em X (antigo Twitter) ligado ao atleta. No texto, publicado em inglês, o autor relatava ter sido expulso por expressão de inconformidade e denunciava tratamento diferenciado por ser jogador negro na Itália: “As a Black player in Italy, I can’t ignore how often we’re treated differently… all I ask for is fairness, respect, and equal treatment on the pitch”. A publicação relacionava diretamente a expulsão com uma alegação de razzismo.
No entanto, pouco depois, o Hellas Verona emitiu uma nota oficial para afastar a autoria do post: o clube informou que o perfil em X ao qual a mensagem foi atribuída não pertence a Gift Orban. Antes dessa retratação pública, a direção do clube havia declarado silêncio de imprensa em solidariedade ao jogador.
O episódio, ainda que curto em sua cronologia, abre questões que excedem a análise estritamente futebolística. Primeiro, a disputa sobre autoria de mensagens em redes sociais evidencia um problema moderno: a facilidade com que narrativas podem ser atribuídas a atletas sem verificação imediata. Em um contexto europeu em que denúncias de racismo no futebol têm sido levantadas com frequência, a proximidade entre denúncia legítima e ruído informacional torna-se perigosa.
Segundo, permanece o núcleo factual: houve a expulsão por protesto aplicada por Pairetto, com impacto direto na conformação do jogo. O resto — a interpretação ampla sobre motivação discriminatória do árbitro — precisa ser tratada com cautela até que haja esclarecimentos formais e, se for o caso, procedimentos por parte das instâncias competentes.
Como analista que vê o esporte através de lentes históricas e culturais, registro que acusações de natureza identitária exigem protocolização. Elas não podem ser reduzidas ao imediatismo das redes ou transformadas em manchetes sem verificação. Ao mesmo tempo, o silêncio institucional inicial e a posterior smentita pública do clube ressaltam a tensão entre proteção ao atleta e a necessidade de transparência.
O episódio com Gift Orban é sintomático: revela como o campo de jogo é hoje também um espaço de disputa simbólica, em que gestos, palavras e posts circulam com velocidade e múltiplas consequências. Para além do cartão vermelho, permanece em aberto a reflexão sobre como federações, clubes e mídia devem responder a alegações sensíveis — com rigor, rapidez e respeito tanto à presunção de veracidade quanto à necessidade de defesa contra difamação.
Segue, por ora, a posição oficial do Hellas: o perfil não é do jogador. Cabe às partes envolvidas — jogador, clube, árbitro e federação — dialogar com clareza para que os fatos sejam apurados e a memória do episódio entre em um registro público que não dependa apenas da volatilidade das redes.






















