Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Massimo Moratti, ex-presidente que marcou profundamente a história do Inter, ofereceu uma leitura sóbria e crítica sobre o lance que definiu o clássico contra a Juve. Em entrevista a Radio anch’io lo sport, Moratti qualificou a atitude de Bastoni como uma simulação “entusiasmada” — uma reação que, na sua avaliação, transformou o desdobrar dos acontecimentos e alimentou uma tempestade midiática desproporcional.
O episódio, já conhecido: após um contato com o braço do adversário, o zagueiro nerazzurro teve uma queda dramática; a imagem e a intensidade da queda levaram à expulsão de Kalulu — deixando a Juve com um jogador a menos por mais de um tempo e abrindo caminho para a vitória do Inter por 3-2, resultado que tem implicações diretas na corrida pelo scudetto.
Moratti descreveu a cena com franqueza analítica: “Ele fez um salto incrível depois do esticamento do braço por parte do adversário. Foi uma simulação entusiasmada, o rapaz aproveitou a oportunidade.” Afirmou também que Kalulu não havia cometido uma falta grave que justificasse a expulsão, e que a ação do defensor interista, embora eficaz em termos imediatos, gerou uma injustiça esportiva.
O caso ganhou contornos institucionais quando John Elkann, à frente da Exor, ligou para o presidente da FIGC, Gabriele Gravina, demonstrando incômodo com a postura adotada pela Juve. Moratti, comentando a ligação de Elkann, disse: “Os tempos mudaram; agora a Juve reclama e faz a vítima. Houve protestos excessivos, como se a história do futebol italiano a colocasse sempre na posição de vítima.”
Ao analisar o contexto mais amplo, Moratti tocou numa questão estrutural: o impacto do VAR no jogo moderno. “O VAR complicou muito o futebol, embora tenha trazido quase uma certeza de julgamento”, ponderou, ressaltando como a tecnologia alterou não apenas decisões, mas também narrativas públicas e estratégias institucionais.
Sobre a possível reação do selecionador Gattuso — isto é, se ele deveria excluir Bastoni da seleção — Moratti apelou à ponderação. “Penso que Gattuso pode dispensar a necessidade de castigar publicamente. Para o jogador, o ataque que vem sofrendo é já um castigo. Ele errou, mas não me parece necessário que a seleção o agrave.”
Além da controvérsia, Moratti reservou elogios ao treinador do Inter, Cristian Chivu, que caminha com o time rumo ao scudetto. “Chivu é sério, lembra Mourinho mais do que se imagina. Jovem, capta rápido os jogadores e tem um grupo forte. O Inter está no caminho certo.”
Como analista que observa o esporte através de lentes históricas e sociais, a intervenção de Moratti revela algo maior: não se trata apenas de uma jogada ou de uma expulsão, mas de como as instituições, as narrativas e a tecnologia moldam hoje a memória dos jogos. Uma queda exagerada num gramado pode transformar-se em capítulo decisivo de uma temporada, e as reações — de torcidas, clubes e dirigentes — dizem tanto sobre o presente do futebol italiano quanto o lance em si.






















