Por Marco Severini – Em um movimento que reconfigurou um dos eixos de influência mais observados da monarquia britânica, o novo livro de Russell Myers lança luz sobre um ponto de ruptura que vai além de diferenças de temperamento ou ambições pessoais. Segundo trechos publicados, a raiz da cisão entre Príncipe William e Príncipe Harry teria sido uma questão de segurança — especificamente, a recusa em conceder proteção real a Meghan Markle nos primeiros meses de seu relacionamento.
Em William & Catherine: The Intimate Inside Story, Myers descreve um cenário em que a então futura duquesa de Sussex se tornou alvo de ataques virulentos nas redes sociais, muitos deles atravessados por preconceitos de teor racial, ligados às origens multirraciais de Meghan. Preocupado com a integridade física da namorada, Harry teria formalmente solicitado escolta e proteção — pedido que, segundo o relato, não foi atendido até o dia do casamento.
Essa negativa, confrontada com o precedente vivido por Kate Middleton — que, ainda no período de noivado com William, recebeu acompanhamento e, após o anúncio oficial do enlace, proteção em tempo integral — foi percebida por Harry como uma desigualdade flagrante: “uma regra para ele e outra para mim”, aponta Myers. A partir daí, a disputa burocrática escalou para um conflito pessoal.
Ao buscar apoio do pai, então Príncipe de Gales, e do irmão mais velho, Harry teria encontrado resistência. O príncipe Charles, conforme os relatos, citou limitações institucionais: não poderia interferir em decisões do Home Office, sobretudo por motivos financeiros que recairiam sobre o contribuinte. A posterior relutância de William em interceder junto aos órgãos competentes acabou por acender a fagulha decisiva no tabuleiro familiar.
Em um gesto que contrariou a hierarquia e os procedimentos palacianos, Harry instruiu a equipe de comunicação do Kensington Palace a emitir uma declaração dura, condenando as assédios e os “sublinhos racistas” dirigidos a Meghan. A iniciativa irritou os patamares superiores: William e Charles reprovaram a falta de consulta prévia, deixando Harry “sbalordito e furioso”, conforme transcrito por Myers.
O que começou como uma disputa sobre guarda-costas e protocolos se transformou numa ruptura estratégica: conversas tensas, encontros rarefeitos e desculpas sucessivas para evitar a mesma sala. Em termos de diplomacia familiar, tratou‑se de um movimento decisivo no tabuleiro — um redesenho de fronteiras invisíveis entre lealdade pessoal e responsabilidade institucional.
Como analista, observo que esse episódio revela alicerces frágeis na arquitetura das decisões palacianas, onde a tectônica de poder entre imagem pública, obrigação constitucional e sensibilidade racial conflui de forma explosiva. A narrativa de Myers adiciona precisão cartográfica a um conflito cuja história pública vinha sendo contada em versões fragmentadas.
Resta saber se as peças deslocadas no tabuleiro poderão ser recolocadas sem comprometer a estabilidade das relações internas à Casa de Windsor. A resposta, como em grandes partidas de xadrez, decorrerá da habilidade dos atores em equilibrar autoridade e empatia — dois elementos que, segundo este relato, se mostraram perigosamente em dissonância.






















