Por Marco Severini — Em um movimento que mistura ofensiva militar e ataque retórico, a Rússia conduziu um lançamento combinado que, segundo Kiev, envolveu quatro mísseis Zircon antinavio, um míssil balístico Iskander-M, um míssil ar-ar guiado Kh-31P e 62 drones de ataque. As autoridades ucranianas afirmam que o ataque foi repelido por uma combinação de meios: a força aérea, tropas mísseis antiaéreos, unidades de guerra eletrônica, sistemas não tripulados e grupos móveis de tiro das Forças de Defesa da Ucrânia.
O episódio ocorre na véspera de uma nova rodada de conversações em Genebra, agendada para 17 e 18 de fevereiro, onde delegados ucranianos viajaram para encontrar representantes russos e norte-americanos. O chefe do gabinete presidencial ucraniano, Kyrylo Budanov, confirmou a partida da delegação e destacou que o grupo levará ao encontro lições da história e a busca por conclusões políticas e estratégicas.
No front diplomático, Moscou intensificou a retórica. A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Maria Zakharova, classificou o governo de Kiev como uma ‘célula terrorista internacional com tendências neonazistas’ e criticou o que descreveu como omissão da comunidade internacional em tratar o tema em fóruns recentes, como a conferência de Munique. A declaração serve como exemplo de um padrão russo de uso da linguagem para deslegitimar interlocutores e preparar o terreno para justificativas políticas e militares.
Paralelamente, na OTAN, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, apelou aos parceiros europeus para um incremento substancial nos gastos de defesa. Em entrevista à Deutschlandfunk, Wadephul defendeu a aplicação do objetivo de gasto de 5% do PIB dos membros da NATO, afirmando que a Alemanha já adequou seu planejamento orçamentário para esse fim, mas que há margem de melhoria entre aliados. Ele nomeou, sem rodeios, a França e o presidente Emmanuel Macron, lembrando que as ambições de soberania europeia devem ser apoiadas por atos concretos no plano orçamentário nacional.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de movimentos paralelos em dois tabuleiros: o militar, com tentativas de projetar capacidade de dissuasão e ataque por parte de Moscou; e o político-diplomático, onde se joga a narrativa sobre legitimidade, alianças e compromissos fiscais para sustentar defesa coletiva. Essas ações revelam a contínua tectônica de poder na região: mísseis capazes de atingir navios e solos, combinados com campanhas verbais para isolar politicamente o adversário.
Para observadores de longo prazo, a mensagem é dupla. Militarmente, a utilização de vetores como o Zircon e o Iskander-M demonstra uma prioridade russa em capacidade antinavio e de precisão de longo alcance. Politicamente, as declarações de Zakharova e a acusação de tendências neonazistas tentam reescrever a narrativa do conflito, pressionando por respostas que transcendem o campo de batalha — inclusive na arena das percepções internacionais.
À medida que delegações se deslocam para Genebra, o momento exige leitura fria e planejamento estratégico: toda jogada será avaliada não apenas pelo seu efeito imediato, mas pela capacidade de redesenhar corações, mentes e alianças no tabuleiro europeu. A estabilidade do equilíbrio de poder depende tanto da eficácia dos sistemas de defesa quanto da solidez dos alicerces diplomáticos que os sustentam.






















