Um ataque com drone atribuído a forças de Israel atingiu um ônibus escolar no sul do Líbano, provocando a morte imediata do motorista e elevando a tensão numa faixa já sensível da região. Fontes militares libanesas relataram que o episódio ocorreu na localidade de Hanin, a cerca de quatro quilômetros da fronteira com Israel, e foi qualificado por observadores locais como uma nova violação do cessar-fogo que vigora entre os dois países desde novembro de 2024.
Segundo as agências russas que replicaram declarações das autoridades libanesas, “um drone do inimigo atacou um ônibus escolar no momento em que o condutor acionava o veículo para se dirigir ao trabalho. O condutor morreu no local”. A objetividade do relato não diminui, contudo, a carga simbólica: um veículo escolar — elemento da vida civil cotidiana — atingido a poucos quilômetros de uma fronteira que funciona como linha de fratura numa tectônica regional de poder.
Em Roma, o episódio chega num momento em que a política externa europeia e atlântica está concentrada em arranjos para a reconstrução de Gaza e na constituição do chamado Board of Peace, iniciativa promovida pelo presidente Donald Trump. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Antonio Tajani, declarou ao Corriere della Sera que “não podemos ficar de fora da reconstrução de Gaza”, justificando a presença da Itália como observadora no organismo. Tajani sublinhou que a participação é tanto uma opção política quanto uma demonstração de compromisso do governo para com a estabilidade do Oriente Médio.
Do seu resort em Mar-a-Lago, o Presidente Donald Trump prepara a sessão inaugural do Board, marcada para 19 de fevereiro no Institute of Peace em Washington. Trump tem empenhado esforços para caracterizar o órgão como um ator central na reabilitação pós-conflito: segundo o próprio Presidente, os Estados membros já comprometeram mais de 5 bilhões de dólares para ajuda humanitária e reconstrução, além de unidades destinadas a uma força internacional de estabilização e ao policiamento local.
Na narrativa oficial norte-americana, o Board surge também como corolário de um plano publicado no outono anterior e que, segundo Trump, teria sido “adotado por unanimidade” no Conselho de Segurança das Nações Unidas — afirmação que compõe a retórica de legitimação do projeto. O Presidente insiste em resultados rápidos: facilitação do envio de assistência, libertação de reféns e um desenho institucional capaz de dar continuidade política às operações de estabilidade.
Até o momento, cerca de trinta países aderiram formalmente ao Board, numa lista que inclui atores com perfis diversos — desde monarquias do Golfo, como a Arábia Saudita, até governos populistas e autoritários, como os de Erdogan, Javier Milei e Viktor Orbán. A presença efetiva de chefes de Estado ou de Governo no encontro do dia 19 permanece em definição, o que revela a delicada coreografia diplomática em curso: cada deslocamento internacional é um lance no tabuleiro que pode redesenhar eixos de influência.
O incidente com o ônibus escolar e o simultâneo impulso político-diplomático em Washington sublinham duas dimensões complementares da crise: a fratura imediata e violenta no terreno — com consequências humanas e riscos de escalada —, e o esforço por construir alicerces institucionais que sustentem a reconstrução e a segurança de médio prazo. No plano estratégico, trata-se de conciliar urgência humanitária com a pragmática da estabilidade: uma operação de engenharia diplomática sobre solo instável.
Como analista, observo que episódios deste tipo testam não apenas a solidez do cessar-fogo, mas também a capacidade dos atores internacionais de traduzirem promessas financeiras e declarações de princípio em mecanismos operacionais crédiveis. O desafio é evitar que o processo de reconstrução se transforme num novo tabuleiro de interesses contraditórios, com fronteiras invisíveis sendo redesenhadas por meio de compromissos mal calibrados.
Em suma, o ataque em Hanin é mais do que um fato isolado: é um aviso de que as janelas de oportunidade para estabilização são frágeis. A resposta coletiva — política, militar e humanitária — determinará se o movimento em curso será um passo decisivo rumo à pacificação ou apenas mais um lance numa longa partida geopolítica.






















