O dia que Cortina vestiu um azul intenso ficará gravado não apenas nas tabelas de resultados, mas na narrativa coletiva do esporte italiano. Com as quatro medalhas conquistadas em uma jornada que juntou técnica, resistência e alguma dramaticidade, a seleção italiana chegou a 22 medalhas em Milano Cortina — um número que reaproxima o país do ápice histórico de três décadas atrás, em Lillehammer, e que redesenha expectativas e memórias sobre o que o esporte de inverno pode representar hoje para a Itália.
Há uma dimensão simbólica nessa contagem. As Olimpíadas em casa costumam funcionar como espelho: refletem o investimento em infraestrutura, a qualidade da formação, o papel das federações e, sobretudo, o sentido coletivo que a nação atribui às conquistas esportivas. Não se trata apenas de somar troféus; trata-se de perceber como, em diferentes vales e pistas — de Cortina a Livigno, de Anterselva à Val di Fiemme —, houve uma convergência de trajetórias individuais que, juntas, escreveram este capítulo.
O cronograma do dia teve nuances que misturam o valor do esforço com o peso da trajetória pessoal. Em Val di Fiemme, a equipe masculina de esqui de fundo formada por Ganz, Barp, Carollo e o incansável Federico Pellegrino subiu ao pódio para assegurar o bronze na staffetta — medalha que, naquele momento, igualava o país ao passado e aumentava o patrimônio azzurro para dezenove pódios.
O pódio parecia suficiente para a festa, mas a tarde reservou capítulos decisivos. Em Livigno, a dupla formada por Michela Moioli e Lorenzo Sommariva tornou real uma recuperação emocionante: eles conquistaram a prata no snowboard cross por equipes mistas, prova que exigiu nervos de aço e sincronia em pistas sempre imprevisíveis. Pouco depois, em Anterselva, veio o momento histórico do biathlon: Lisa Vittozzi venceu o ouro no pursuit feminino de 10 km, entregando à Itália seu primeiro ouro olímpico no biathlon — um marco que amplia não só o quadro de medalhas, mas o alcance simbólico das modalidades de precisão entre nossas conquistas.
Feito isso, a conta final daquele domingo monstruoso alcançou 22 medalhas e oito ouros — números que já configuram um recorde para Milano Cortina e que transformam esta edição numa das mais profícuas da história italiana nos Jogos de Inverno. A comparação imediata é com Lillehammer, referência obrigatória: foram necessárias sete edições e 32 anos para que se pudesse olhar para trás e perceber que a memória de 1994, antes tida como imbatível, passa a conviver com uma nova referência.
Os protagonistas dessa virada não são apenas nomes isolados, mas símbolos de continuidade e renovação. De Manuela Di Centa, Deborah Compagnoni e Alberto Tomba — ícones de décadas anteriores — a Arianna Fontana, Francesca Lollobrigida e, claro, Federica Brignone, constrói-se uma genealogia do sucesso. Brignone, que já havia subido ao degrau mais alto no Super-G, repetiu a façanha no gigante, tornando-se, como Tomba no passado, a referência de uma Itália que volta a colecionar ouros individuais numa mesma edição. A escalada de Brignone confirma não só o talento de uma atleta, mas a capacidade do sistema de sustentar performances de nível olímpico.
Há sinais claros de uma mudança de eixo: esta edição é cada vez mais marcada pelo protagonismo feminino. Das oito medalhas de ouro, seis nasceram de conquistas femininas. No conjunto, dos 38 atletas que até agora têm ao menos uma medalha, 21 são homens e 17 são mulheres — um equilíbrio que, em sua leitura sociocultural, diz muito sobre políticas de formação, investimento e visibilidade nas diferentes regiões e modalidades.
Outro dado que merece atenção estratégica: as medalhas vieram de nove disciplinas distintas — um leque de sucesso jamais visto antes pelo país em Jogos de Inverno. Essa diversificação é, em si, uma conquista institucional. Para a Federazione Italiana Sport del Ghiaccio (FISG), são já três ouros; e houve também um recorde no número de atletas medallistas representando as federações: 17 atletas dentro da estrutura da FISG, enquanto a Federazione Italiana Sport Invernali soma 21 atletas medallistas. Esses números apontam para uma capacidade de multiplicação do sucesso que ultrapassa clubes isolados e toca políticas nacionais.
Competitivamente, a Itália figura em segundo lugar no quadro de medalhas, atrás apenas da Noruega — que tem duas medalhas a mais e 11 ouros. Mas isso, matematicamente, não apaga a dimensão simbólica do que está sendo construído: paciente combinação de tradição e renovação. Onde antes havia especialização — poucos domínios dominados por atletas lendários — hoje há pluralidade de pódios e mais atletas tocando o triunfo.
Do ponto de vista histórico, Milano Cortina surge como um espelho das transformações italianas no esporte: descentralização de centros de excelência, investimento nas categorias de base e, talvez mais importante, maior visibilidade e suporte para atletas femininas. Essas mudanças não ocorrem por acaso; são consequência de trajetórias administrativas, de escolhas orçamentárias e de pressões culturais que, ao fim, se manifestam no gelo, na neve e nas pistas.
Ainda há provas por disputar e, com elas, a possibilidade de ampliar a contagem. As próximas jornadas poderão consagrar novos nomes e ajustar a colocação no quadro final, mas o fato inegável é que Milano Cortina já mudou a narrativa: o país não apenas voltou a colecionar medalhas — ele as conquistou em diversidade e com protagonistas que conectam passado e presente.
Para além dos pódios individuais, é preciso pensar na herança que ficará: instalações recuperadas, maior atenção para modalidades antes periféricas e um discurso renovado sobre a centralidade do esporte de inverno para a identidade esportiva italiana. Estádios e pistas são, por definição, arenas culturais; o que se decide nelas reverbera por anos nas políticas públicas, nas federações e na memória coletiva.
Ao encerrar este balanço, fica a percepção de que a Itália vive um momento de fecundidade esportiva que dialoga com valores mais amplos — coesão regional, projeção internacional e reconstrução de um orgulho que passa, justamente, pela noção de pluralidade do talento. Se os próximos dias trouxerem novas medalhas, não serão apenas números a mais no quadro: serão confirmações de que um projeto duradouro foi, enfim, capaz de cruzar a linha e converter investimento em história.
Enquanto isso, a nação observa: não apenas o pódio, mas o que o pódio revela sobre nós mesmos. E, nesta Milano Cortina, o azul prevalece — como cor de vitória, sim, mas sobretudo como camada simbólica de um desejo coletivo que se renova.






















