No calor frio que domina as pistas de Milano Cortina, a programação de hoje concentra um dilema esportivo e simbólico: são seis medalhas em disputa numa só jornada e, entre elas, o dia promete revelar protagonistas e narrativas que poderão entrar no acervo memorável das Olimpíadas de Inverno. No centro desta manhã está o Slalom especial masculino, com o quarteto italiano Tobias Kastlunger, Tommaso Sala, Tommaso Saccardi e, sobretudo, Alex Vinatzer, apontado como a principal esperança nacional para um pódio.
Antes de entrar nas linhas e nos tempos, é preciso reconhecer o clima que envolve a delegação italiana: a onda de entusiasmo, alimentada por vitórias recentes — entre elas o notável duplo ouro de Federica Brignone — tem funcionado como combustível coletivo. A Itália já soma uma importante quantidade de troféus nestes Jogos e hoje pretende transformar ímpeto em resultados concretos. Em termos simbólicos, a imagem de adversárias rendendo homenagem a Brignone após sua vitória expressou algo além da competição: é um gesto de reconhecimento que reverbera para além da pista, inscrevendo-se numa narrativa nacional de ressurgimento no esqui alpino.
O Slalom especial: panorama técnico e concorrentes
O primeiro post vai às 10:00 horas, com a segunda manche decisiva marcada para as 13:30. O Slalom especial é uma prova de microgestos — curvas rápidas, leitura impecável do traçado, capacidade de reagir à superfície que muda a cada passagem. No papel, o francês Clément Noël entra como campeão olímpico em título, um ponto de referência para quem busca entender o que significa estar na vanguarda da modalidade. Do lado técnico, o suíço Loïc Meillard mantém a boa forma: campeão mundial e vencedor em gigante nesta temporada, Meillard tem demonstrado versatilidade, embora o slalom não seja, historicamente, sua especialidade absoluta.
Os noruegueses continuam a figurar como potência em slalom: Henrik Kristoffersen, veterano com palmarés e excelência técnica, e o jovem Atle Lie McGrath, promessa que já sinalizou capacidade de impacto em provas de alto nível, devem ser observados de perto. Outra história que tem acompanhado estas pistas é a de Lucas Pinheiro Braathen — que, vale registrar, é norueguês — um esquiador de talento e ousadia, cujo estilo já evocou memórias de heróis do passado e, em episódios recentes, provocou reações emocionadas até de lendas do esporte.
Para a Itália, a equação é clara: a experiência e a frieza de Kastlunger e Sala se combinam à juventude e ao arrojo de Saccardi e Vinatzer. Alex Vinatzer, em especial, carrega uma narrativa construída entre técnica apurada e pressões de expectativa: não é apenas um competidor individual, é o rosto mais imediato de uma ambição coletiva, capaz de catalisar a confiança de uma equipe e da torcida.
Uma perspectiva histórica e cultural
O Slalom sempre teve para a Itália um duplo papel: esportivo e identitário. As montanhas do país — e as infraestruturas que se desenvolveram ao longo de décadas — criaram uma relação entre comunidade e neve que ultrapassa a lógica da competição. Estádios e pistas funcionam como espaços de afirmação regional e nacional; o triunfo num poste estreito, numa curva apertada, carrega simbolismos de resiliência e tradição técnica. Hoje, a disputa em Milano Cortina não é apenas a busca por uma medalha: é a continuação de uma história que mistura economia local, memória esportiva e políticas públicas de fomento ao esporte de inverno.
A pressão, portanto, é coletiva: quando Vinatzer ou qualquer outro atleta italiano parte para a sua manche, carrega o peso de uma expectativa que tem raízes em clubes alpinos, em famílias que há gerações frequentam as pistas, e em uma imprensa que transforma feitos esportivos em narrativas nacionais. Em termos práticos, isso pode ser tanto estímulo quanto obstáculo — e é função do esportista transformar essa energia em foco técnico.
Olhos também em Milão: Arianna Fontana e o Short Track
Longe das encostas, no gelo do Mediolanum Forum, Milão concentra outra história querida do esporte italiano: o Short Track e a figura de Arianna Fontana. A partir das 11:00, serão disputadas as fases finais dos 1000 metros femininos (quartos de final, semifinais e final), com Fontana ladeada por Chiara Betti e Elisa Confortola. Fontana é, em muitos sentidos, uma das grandes protagonistas da narrativa olímpica italiana recente: sua trajetória — construída ao longo de vários ciclos olímpicos — é também um estudo sobre longevidade, adaptação técnica e carisma dentro de uma modalidade que exige nervos de aço e capacidade estratégica em frações de segundo.
O short track materializa um teatro de riscos e leituras táticas. Em provas curtas, cada movimento lateral, cada decisão de ultrapassagem representa uma possibilidade de êxito ou desastre. Para a Itália, Fontana é um elemento que, mesmo em dias sem pódio, altera a compreensão do público sobre o que significa competir no limiar do erro.
Bob, Monobob e Big Air: final da jornada
O dia se desdobra ainda em outras frentes: à noite, as manche finais do Monobob feminino em Cortina acontecem às 19:00 e 21:00, com as italianas Giada Andreutti e Simona De Silvestro entre as protagonistas. O monobob feminino, introduzido no circuito olímpico recente, transformou a percepção sobre o bob como modalidade coletiva: aqui, a ênfase recai sobre a pilotagem individual e a precisão técnica. Andreutti e De Silvestro representam gerações distintas, e suas presenças apontam para a capacidade da Itália de formar atletas que transitam entre tradição e inovação tecnológica.
Simultaneamente, em Livigno, a jovem Flora Tabanelli assume protagonismo na final do Big Air feminino de esqui acrobático — uma das provas mais espetaculares e midiáticas destes Jogos. O Big Air é espetáculo em estado bruto: o público e as redes sociais capturam não apenas a performance, mas a imagem que fica, o salto que se eterniza numa foto. Para a Itália, Tabanelli é uma aposta no futuro do freestyle, um setor que combina elementos de risco, cultura jovem e diálogos estéticos com a paisagem das montanhas.
Seis medalhas, múltiplos sentidos
Resumo prático: hoje estão em disputa seis medalhas — um número modesto em termos de volume, mas intenso em termos de significado. Cada prova oferece uma possibilidade de consolidar narrativas: afirmar um novo talento, perpetuar uma carreira histórica, ou simplesmente construir memórias coletivas. Do ponto de vista cultural, eventos coincidentes — slalom, short track, monobob, big air — desenham um retrato plural do esporte italiano contemporâneo: técnico, emocional, e cada vez mais híbrido entre tradição e espetáculo.
Ao torcedor cabe a função de testemunha e intérprete. É nas pequenas variações de linha no slalom, no milésimo de segundo de uma final de short track, no equilíbrio dramático do monobob, e na audácia de um salto de big air que se lê o estado da nação esportiva. Para os atletas, a missão é simples e inexorável: transformar atenção em desempenho, pressão em precisão. Se a Itália já mostrou brilho nestes Jogos, hoje é dia de testá-lo em pista e gelo.
O cronograma do dia (principais horários):
- 10:00 — Primeira manche do Slalom especial masculino em Milano Cortina;
- 11:00 — Fases finais dos 1000m femininos de short track (quartos, semifinais e final) no Mediolanum Forum, Milão — com Arianna Fontana em pista;
- 13:30 — Segunda (decisiva) manche do Slalom especial;
- 19:00 e 21:00 — Manche finais do Monobob feminino em Cortina, com Giada Andreutti e Simona De Silvestro competindo;
- Horário noturno — Final do Big Air feminino em Livigno, com Flora Tabanelli entre as concorrentes.
O dia em Milano Cortina ilustra, em pequena escala, o que essas Olimpíadas representam para a Itália contemporânea: uma oportunidade de reafirmar capacidades, rever histórias e fabricar novos símbolos. Mais do que acompanhar cronometros, o observador atento busca entender como cada vitória ou queda se encaixa numa narrativa mais ampla — sobre formação, investimento, identidade regional e memória coletiva. No fim das contas, as seis medalhas da jornada não serão apenas números na contagem: serão pontos de inflexão numa temporada que a Itália espera transformar em legado.
Fique atento: a disputa técnica do Slalom especial e a saga de Arianna Fontana prometem gerar imagens e histórias que vão além do pódio. E, para o espectador italiano, há sempre algo a mais em jogo: não apenas o metal, mas a permanência de uma tradição que aprende a reinventar-se a cada curva apertada e a cada salto no ar.






















